Tuesday, July 14, 2009

Efeméride

Majestade, vós sois um estranho nesta assembléia e não tendes o direito de aqui se pronunciar.”
Mirabeau, em 17 de junho de 1789, quando o Terceiro Estado proclamou-se Assembléia Nacional: 220 anos atrás, portanto. Antes que você reclame, eu sei que hoje - 14 de julho - é o dia da queda da Bastilha. A frase do velho Mirabeau é irresistível, porém.

A verdade é que, em 17 de julho, o Rei já não governava mais nada. Talvez, apenas ele tenha se desapercebido desse pequeno detalhe.

>> Big Ideas; LCD Soundsystem; 21 (Music from the Motion Picture)
>> Eles Foram Para Petrópolis; Ivan Lessa & Mario Sergio Conti; Companhia das Letras

Saturday, July 11, 2009

Carta Para Clarice


Cara Clarice,

Faz cinco anos que estamos aqui. 1826 dias respirando solidão no Planalto Central. Sei que você não aprovou a cidade. Chegaste a escrever que "a alma aqui não faz sombra no chão". Eu discordo, minha cara.

Calma, calma, não leve a mal. Já explico.

Gosto de Brasília, da mesma maneira que o Mario Sergio gosta. Gosto do monumentalismo de Niemeyer, dos carros que não buzinam e dos canteiros floridos do Roriz.

Gosto, também, da onipresença do sol e do horizonte sem fim. Gosto, até, do demodê estampado nos carpetes das repartições públicas e suas horrendas divisórias de madeira. O cafezinho às vezes é bom, inclusive.

Você pode dizer: como alguém atura algumas músicas produzidas por lá, poxa? Eu falo, tudo bem, a cidade tem seus pontos baixos. Falta praia, por exemplo - o Arruda está dizendo que vai fazer uma no Lago Norte, vamos ver.

De qualquer modo, gosto do ar seco e do céu azul-azul. Da imensidão de sotaques, dos calorosos tapas nas costas, dos segredos que todo mundo sabe, dos muitos - atuais - restaurantes, das águas tranquilas do Lago Sul (hoje, por coincidência, ele estava uma finura), da Esplanada e suas luzes. Gosto daqui.

Sabe, Clarice, escrevi certa vez que o Cerrado traz reminiscências. É fato... e assunto para outra carta. Fique bem.

>> Bra; Cymande; Ronca-Ronca
>> Eles Foram Para Petrópolis; Ivan Lessa & Mario Sergio Conti; Companhia das Letras

Thursday, July 09, 2009

Ufanismo

De certa forma, aos tropeços, a sociedade brasileira avança. Por exemplo, até onde sei, ninguém se deu conta do vácuo ocorrido na cadeira da presidência ontem. Explico-me: Lula estava/está na Europa, José Alencar foi internado às pressas no Sírio-Libanês e Michel Temer tranquilamente presidia a sessão da Câmara dos Deputados na qual se votava a reforma eleitoral.

Pois bem, no final da tarde de ontem - e, salvo engano, até hoje - não havia nenhuma alma batendo ponto no assento maior da República. Felizmente, não houve uma voz maluca a bradar: "delcaro vaga a cadeira da presidência...". Progredimos, portanto.

Penso que esse pequeno evento mostra progresso na estabilidade institucional para a qual começamos a caminhar em 1988. Ainda falta muito, decerto. Mas é alvissareiro saber que a lacuna não provocou terremotos institucionais... ao menos até agora.

>> Nightswimming; R.E.M.; ...
>> Eles Foram Para Petrópolis; Ivan Lessa & Mario Sergio Conti; Companhia das Letras

Conselhos ao B.

#5 Assista à Guerra nas Estrelas, Caçadores da Arca Perdida e todos os filmes do Spielberg.
Conversamos depois.

>> Gin House Blues; Nina Simone; Best of Colpix Years
>> Revista Piauí; Julho-09

Saturday, July 04, 2009

Proposta

Recentemente, foi apresentada na Câmara dos Deputados a PEC 341/09, que sugere um “enxugamento” da constituição brasileira. Grosso modo, um debate a fim de dinamizar a constituição parece ser alvissareiro, porém, as opiniões sobre o assunto têm sido bastante intensas - tanto a favor quanto contra a idéia.

Apenas para se ter uma dimensão da PEC, a proposição almeja reduzir os artigos da Constituição dos atuais 250 para apenas 70. O ADCT, por sua vez, passaria a ter somenta um artigo, a dispor que toda matéria suprimida do Texto Magno continuará em vigor até sua substituição por meio de leis complementares ou ordinárias – tal iniciativa teria o desígnio de evitar um vácuo legislativo. A proposta está em análise na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara, e foi apresentada pelo Deputado Régis de Oliveira, que é desembargador aposentado e professor de direito constitucional em São Paulo.

A fim de atingir o objetivo da proposta, o parlamentar propõe remover da CF todo e qualquer assunto alheio à estrutura dos Poderes da União, à forma de exercício desses poderes e aos direitos e garantias individuais. Desse modo, seriam extraídos temas como o sistema financeiro, a saúde, o meio ambiente e a estrutura do judiciário, entre outros. Todas essas matérias passariam a ser reguladas por leis outras que não a Constituição.

Apesar da boa vontade do Deputado Oliveira, o tema deve levantar muitas polêmicas, haja vista que a PEC pretende alterar, também, o mandato do Presidente da República, o “tempo de serviço” dos Ministros do STF (passaria a haver um limite de 9 anos), além de excluir totalmente o rito das medidas provisórias. No entender do Parlamentar, tais mudanças não prejudicariam nenhum direito já adquirido e a proposta de alteração constitucional iria acabar com as muitas emendas que nossa Lei Maior já possui. O Parlamentar destaca, ainda, que países mais avançados, como Estados Unidos e Inglaterra, já possuem textos liberais, mais enxutos e estáveis do que o nosso.

Obviamente, o Deputado Régis de Oliveira possui credenciais que inibem qualquer crítica. O congressista talvez seja um dos mais experientes a atuar na CCJC. Todavia, dada a intensidade do tema – e a curiosidade que desperta – vale arriscar-se a escrever algumas linhas sobre o assunto.

Decerto, nossa constituição é excessivamente minuciosa algumas vezes. Entretanto, essa característica decorre do momento de sua elaboração: o país saía do período militar e todos os grupos sociais queriam garantir seus direitos da melhor maneira possível – nada mais natural e democrático. Assim, malgrado a extensão da CF, creio que o esforço maior deveria ser em favor de implementar a boa vontade do constituinte originário, e não reduzir seu alcance. Há aspectos positivos – e até hoje inovadores – que não deveriam ser removidos do Texto Maior. A parte ambiental, por exemplo, é muito avançada e coloca o Brasil na dianteira de tema relevantíssimo ao mundo moderno. Por si só, a mera definição do que deva ser removido pode afetar o prestígio do Texto de 1988, certamente a mais avançada constituição que o Brasil já teve e uma das mais progressistas do mundo.

O próprio aspecto liberal – que o Deputado Régis ressalva – merece ser analisado com cuidado. Nosso passado nunca foi muito brando com as iniciativas liberais incutidas no seio constitucional. Foi assim em 1824, para citar apenas um caso. O texto de 24, liberalizante e influenciado pelos revolucionários franceses, patenteou-se como instável e suscitou diversas atribulações políticas que não seriam recomendáveis nos dias que correm. Exatamente pelo fato de os temas não estarem elencados na constituição, eram considerados menores ou, então, dispensáveis. Dessa forma, apesar de termos evoluído muito desde 1824, ainda há elementos geradores de instabilidade que permanecem em nossa sociedade. Talvez, o conservadorismo seja a maior dessas marcas.

Outro aspecto que merece observação é a estrutura a ser atribuída ao ADCT. Caso aprovado o projeto, as disposições transitórias passarão a conter apenas um artigo , regendo: “toda matéria suprimida da constituição continuará em vigor até sua substituição pela legislação complementar ou ordinária prevista”. Em essência, tal artigo é forçosamente inconstitucional. Vejamos.

Os congressistas de 88 foram bastante claros acerca dos temas considerarados “constitucionalmente” relevantes. Tamanha foi a preocupação dos constituintes que, à época, entenderam 250 itens como merecedores dessa característica - não por acaso, a constituição que temos.

Ao ressalvar que os itens removidos devem continuar na CF até serem regulados por leis ordinárias ou complementares, a Emenda vai deixar na constituição matérias que não mais serão constitucionais. Em outras palavras, a idéia é mais ou menos essa: os 180 itens removidos vão continuar na CF - sem status constitucional, embora estejam no Texto Maior - até serem regulados por leis que exigem quórum inferior ao das Emendas Constitucionais para que sejam deliberados.

Parece haver grave contradição nesse caso. O constituinte originário instituiu rígido quórum para a alteração dos preceitos constitucionais, que não devem ser alterados por mecanismos avessos à deliberação constitucional precisamente dita.

O próprio Supremo Tribunal Federal já teve a oportunidade de se manifestar sobre o tema. Na ocasião, o Ministro Moreira Alves relatou o voto condutor do leading case no STF (a leitura é recomendada). Em sua opinião, a constituição não pode se contradizer, trazendo em seu corpo texto que não é constitucional, sob pena de ela – constituição – deixar de ser...hã... constitucional.

É preciso entender que nossa constituição é um patrimônio, não um fardo. Devemos - com ela e a partir dela - tentar constituir um país melhor. As célebres palavras do Deputado Ulisses Guimarães, na promulgação do Texto de 1988, foram - e ainda são - premonitórias: “a Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca”. Apenas a estabilidade temporal do texto pode contribuir na construção da sociedade que almejamos.

>> Fátima; Capital Inicial; Acústico MTV
>> Antes de Nascer o Mundo; Mia Couto; Companhia das Letras

Tuesday, June 30, 2009

Os Outros: Fernando Pessoa

"Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer (...)".
Fernando Pessoa, em carta escrita a Mário de Sá Carneiro no dia 14 de março de 1916. Tempos atribulados, enfim.

>> O Mundo é um Moinho; Cartola; Cartola 2
>> Antes de Nascer o Mundo; Mia Couto; Companhia das Letras

Saturday, June 27, 2009

MJ

Bombardeado pela mídia após a morte do MJ, fico cá pensando como é estranho esse tempo no qual vivemos. Acho lamentável termos que discutir sobre as causas, o “porque tão cedo” ou sobre a última ligação da casa do astro para o serviço 911. Para mim, Mr. Jackson sai da vida exatamente como a enfrentou: tragicamente.

Penso que, no caso dele, tudo não passa de uma imensa tragédia pessoal, interminável ao longo dos anos e sobre a qual não há muito a dizer. Acima de tudo, infortúnios criados por ele e pela mídia – a mesma que o explora post-morten – geraram esse híbrido melancólico-pop no qual o astro se tornou. O site de “O Globo”, por exemplo, tem nada menos do que 6 manchetes “michaeljackianas” apenas na primeira página. Lamentável.

Fica a pergunta: Michael Jackson foi o grande artista pop de nosso tempo ou foi apenas um freakzóide pedófilo e megalomaníaco? Não sou muito fã da musica dele, portanto, fico com a segunda opção. Por óbvio, meu posicionamento não é o mesmo da maior parte das pessoas do planeta.

Por isso, no mínimo, serão duas semanas ouvindo “Billy Jean” em tudo que produza algum tipo de som. Conforme disseram o Sérgio Leo e a Arye, até acharem a caixa preta da morte do Mr. Thriller, é melhor tirar os querubins da sala.

O mais esquisito de tudo é que ninguém parece avaliar os reais acontecimentos na vida e na morte do popstar. Beat it, ligações para o 911, disparada nas vendas de CDs, homenagens várias, o rei do pop silenciado: em Neverland, além do Michael, ninguém atingiu seu destino.

>> God Put a Smile Upon Your Face; Coldplay; Live 2003
>> Varennes

Friday, June 26, 2009

Conselhos ao B.

#4 Conheça profundamente a constituição brasileira, a história do país e a história mundial moderna.
Uma decorrência do conselho anterior.

>> Lose You; Pete Yorn; Musicforthemorningafter
>> Retalhos

Conselhos ao B.

#3 Você é brasileiro
Quer ame seu país ou não, jamais esqueça sua nacionalidade. Ao contrário do que dizem, nosso passado não foi o equívoco que podem lhe querer aparentar.

>> Complicated Shadows; Elvis Costello; Secret, Profane and Sugarcane
>> Retalhos