Saturday, September 06, 2008

Alvíssaras, Meu Capitão: Óleo à Vista*

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Os meios diplomáticos e políticos estiveram agitados esta semana: segundo o Ministro Edson Lobão, o Brasil rejeitou uma proposta iraniana para ingressar na OPEP. Como todos vocês sabem, nosso país tornou-se o mais recente maná energético do planeta. Entretanto, para efetivamente tornar-se um “top dog” petrolífero, o Brasil precisa de imensos investimentos em teconologia, além de grandes somas de dinheiro a fim de financiar a nova bacia do pré-sal. Ao que parece, uma eventual assossiação à OPEP tenderia a eliminar qualquer chance de que esse tipo de parceria em investimentos e teconologia aportasse em nossas águas.

O óleo pré-salino é de difícil extração, recomendando, portanto, elevadíssimos aportes tecnológicos. À guisa de exemplo, somente no que diz respeito à acessibildiade dos depósitos, as teconologias necessárias estão, ainda, na manjedoura.

Malgrado a Petrobrás seja, talvez, a estatal energética mais bem gerida do planeta, não poderia ela sozinha avançar em um projeto de tamanhas dimensões. A complexidade tecnológica e financeira da empreitada requer tanta colaboração quanto possível. Felizmente, a necesssidade dessas alianças parece ter clareado a cabeça iluminada de nossos dirigentes e, assim, tornando possivel a rejeição ao convite da OPEP.

A aceitação a um convite nos tradicionas termos do grupo iria atar o Brasil a dois compromissos essenciais: quotas limitadas de produção e regimes de preços fixos para a venda do óleo negro. Dado que o país sequer tem certeza do tamanho dos poços, haveria imenso risco de limitar nossa potencial produção em níveis muito abaixo dos desejados pela nação - apenas para que se atendesse aos desejos dos maiores produtores de petróleo do planeta.

Mas, o mais importante: ao comprometer-se com a OPEP, nosso “Poço do Visconde” estaria severamente subordinado ao regime de controle de preços opepiano. Fato que, em tese, poderia alijar-nos dos lucros das reservas. Tal característica é particularmente importante já que, apesar de a Petrobrás estar otimista em relação ao custo de extração por barril, os projetos certamente não serão baratos.

A decisão, portanto, parece ter sido acertada. Ponto para o governo e para a Petróleos Brasileiros S. A. De qualquer forma, o eventual ingresso na liga petrolìfera não está de todo descartado. Uma vez que o Brasil comece a vender petróleo em volumes confortáveis e globais, poderíamos nos juntar à OPEP no intiuto do benefício dos preços controlados – que hoje tanto nos desinteressam. Enfim, um jogo bastante realísito e de nosso maior proveito.

* A foto acima é produção própria. Foi capturada na Ponta da Areia, Niterói, em um entardercer de 2001. Nesse mesmo lugar, em meados do século XIX, o nobre Barão de Mauá produzia seus famosos barquinhos.

>> Don't Need The Sunshine; Catatonia; International Velvet
>> A Epopéia do Pensamento Ocidental; Richard Tarnas; Bertrand Brasil

Wednesday, September 03, 2008

Obamania


“You understand that in this election, the greatest risk we can take is to try the same old politics with the same old players and expect a different result. You have shown what history teaches us – that at defining moments like this one, the change we need doesn’t come from Washington. Change comes to Washington. Change happens because the American people demand it – because they rise up and insist on new ideas and new leadership, a new politics for a new time.”

Como “ghostwriter” eventual, gosto muito de acompanhar/ler discursos políticos. Nos últimos tempos, presenciar os pronunciamentos do candidato Democrata à Casa Branca, Barack Obama, tem sido um prazer.

Uma das técnicas que mais gosto de analisar é a que lida com a criação de conceitos novos a partir da remodelação de idéias antigas. Exemplifico: ao dizer que a mudança não vem de Washington, mas para Washington, o Senador simplesmente repetiu uma frase clássica da política estadunidense. A diferença é que, agora, de uma maneira, digamos... “pós”-moderna.

Em seu discurso inaugural, Kennedy disse a conhecida frase: “(...) ask not what your country can do for you -- ask what can you do for your country". Ao afirmar que a mudança vai para Washinton, Obama praticamente disse a mesma coisa, ou seja: você é responsável pela mudança que o país precisa.

A própria publicidade do candidato é voltada quase que totalmente a esse tipo de idéia “pré-concebida adaptada”. O processo é feito com tal maestria que Obama ultrapassou a barreira de Político/Senador/Candidato/Presidente e está tornando-se um ícone. Não sei se vocês perceberam, mas o pôster ostentado pelos militantes na convenção Democrata era esteticamente muito parecido com as “Marilyn Prints”, criadas por Andy Warhol na década de 1960.

O mais interessante é que, por meio de tal mecanismo, o interlocutor médio recebe as mensagens, percebe algo de agradável, mas – na maior parte das vezes – não consegue associá-la ao passado ou a algo dito por outra pessoa. Dessa forma, a proposta surge como elemento “inédito” e interessante, modernizando o político e, ao mesmo tempo, conectando-o a algo idílico e consolidado. É, a meu ver, uma excelente maneira de se fazer política, além de garantir um tipo positivo de publicidade. No final das contas, uma jogada de mestre.

Brasileiro que sou, ao final do discurso do Obama, cheguei a pensar: vou votar nele. O passaporte vencido e a Sarah Palin trouxeram-me de volta à realidade.

>> Into the Night (feat. Chad Kroeger); Santana; Into the Night
>> Poder Constitunte e Poder Popular; José Afonso da Silva; Malheiros

Monday, September 01, 2008

Os Outros: Vinicius de Moares

"Olhe Aqui, Mr. Buster...

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster – o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?"
>> She Sells Sanctuary; The Cult; Love
>> Poder Constituinte e Poder Popular; José Afonso da Silva; Malheiros

Sunday, August 31, 2008

il pleut


São 00:56, 31 de agosto de 2008. Há o que comemorar: chove em BSB. Mantenho meus estudos e tudo corre bem.

>> The Day We Caught the Train; Ocean Coulor Scene; Moseley Shoals
>> Manual de Direito Constitucional; Jorge Miranda; Coimbra Editora

Saturday, August 30, 2008

The Guns of August

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Após observar brevemente os eventos no Cáucaso, creio que as lentes estarão voltadas para Washington ao longo desta semana. No meu entender, os Estados Unidos deixaram clara sua oposição às ações russas na Geórgia. Entretanto, entender o que os EUA pretendem não é tarefa muito simples – principalmente quando considerado o imbróglio em que se envolveu a região - com Irã, Rússia, EUA e muitos outros países enfrentando interesses mais do que conflitantes.

A meu ver, existem duas óbvias opções no que tange à Washington. A primeira seria inserir uma pequena unidade na Geórgia, talvez um batalhão, como símbolo de suporte ao presidente Mikhail Saakashvili. A outra seria levar uma esquadra para o Mar Negro. Por certo, ambas são idéias complicadíssimas: o batalhão criaria uma longa e desnecessária presença estadunidense na Geórgia – o que não é uma boa idéia; a esquadra, por seu turno, teria o efeito adicional de ajudar os ucranianos, mas seria efetiva apenas se a Casa Branca estiver preparada para usar a força em eventuais bloqueios ou ameaças – iniciativas perigosas e que certamente não teriam apoio da OTAN. Creio que, em algum momento, os Estados Unidos terão que repensar tais iniciativas e aceitar a real possibilidade de os russos venderem armas ao Irã (ou de os iranianos terem, finalmente, poder nuclear). Dessa forma, vale o aviso de “watch Washington”.

Vale, também, observar Moscou. O Kremlin continua a falar de modo agressivo, apontando para a dependência européia em relação ao gás russo (lembrem-se que o inverno europeu começa em breve e que o gás é fundamental no frio do norte). Decerto, não está muito claro o que pensam os russos. Na verdade, pode ser que eles mesmos não saibam o que dizem e estejam somente esperando para ver como vão reagir tanto Washington quanto a Europa. Entretanto, é evidente que está em curso um processo de tomada de decisões e que existe uma possibilidade de futuras ações políticas – ou militares, até – ao longo da periferia russa. Portanto, interessa acompanhar os movimentos de Vladmir Putin e sua trupe.

Na parte que cabe a nós, latinos, creio que há furtivas – porém sérias – implicações. Se houver uma escalada nos eventos, penso que Venezuela e Cuba podem receber algum tipo de “sobrevida” no tabuleiro mundial, principalmente se os dois países forem úteis ao Kremlin. Creio, entretanto, que esse “valor” não passaria da irritação à Washington. De qualquer forma, ambos os países passam por algum tipo de dificuldade e poderiam ganhar um adendo em seus regimes políticos por meio de pequenas ajudas russas. No caso de Moscou, tal ajuda poderia ser desejável se pensarmos na utilização da zona caribenha como base militar: ainda que os EUA detenham superioridade numérica, aviões vermelhos trariam toda sorte de incertezas ao Canal do Panamá, à Flórida e, indiretamente, à economia mundial.

Venezuelanos e cubanos provavelmente iriam aceitar os russos de bom grado – e podem até estar oferecendo essas mesmas bases no momento em que escrevo essas digressões. Será interessante – e algo assustador – ver qual a resposta russa.

>> Nega; Marcelo D2; Perfil
>> Os Limites da Revisão Constitucional; Gilmar Ferreira Mendes; Cadernos de Direito Constitucional

Wednesday, August 27, 2008

Personal Jesus

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“O Sr. Carneiro da Cunha: - Sr. Presidente: Não posso aprovar a emenda do Sr. Moniz Tavares na parte em que exige 40 anos de idade para ser Conselheiro de Provincia. Todos conhecem que temos falta de gente de luzes; e se desses poucos homens que ha capazes de taes empregos, ainda tirarmos os que não chegão áquella idade, ficaremos em algumas Provincias sem ninguem.
(...)
Sou pois do voto que todo o que tiver mais de 25 anos de idade possa ser eleito Conselheiro de Provincia."

O excerto acima - em redação original - faz parte de livro que comprei recentemente: “Diário da Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil – 1823”. A publicação traz todos os debates travados ao longo da malfadada Assembléia de 1823, encerrada de modo abrupto por D. Pedro I.

O texto é registro fiel da inteligência cultural do país à época, reunida nacionalmente para fundar o parlamento pátrio. Creio não exagerar ao dizer que esses homens de 1823 seriam nossos “founding fathers”: convocado em 1822 pelo ainda regente Pedro, o Congresso acabou sendo um dos mais importantes elementos da independência brasileira. De certa forma, esse espírito independente foi tão alinhado aos interesses da nação que o governante não teve outra opção além de outorgar uma Carta diversa.

A meu ver, a citação que escolhi guarda estreito vínculo com os tempos atuais. Em especial, com a campanha eleitoral moderna. Ao dizer que eram poucos os iluminados com mais de 40 anos, o Sr. Carneiro da Cunha foi premonitório: ainda hoje a assertiva é profícua.

A propaganda eleitoral em 2008 é, para dizer o mínimo, anacrônica. Veiculamos, hoje, publicidade acerca de candidatos que sequer estariam aptos a concorrer aos “pleitos” do século XIX. Decerto, os puristas dirão ter sido restrita a participação eleitoral no passado e que o modelo atual reflete a sociedade brasileira com maior precisão. Entendo que nada poderia ser mais enganoso: cada um tem a elite que merece.

É verdade que o limitado tempo de exibição inibe a apresentação de qualquer tipo de proposta mais elaborada. Entretanto, os candidatos poderiam tentar não se comprometer. Aqui em Brasília - sem eleições - tenho assistido ao programa paulista e a decepção é imensa. Apesar de estarem no centro “esclarecido” do pais, o nível dos candidatos é infernal.

Sobre assuntos tenebrosos, na Divina Comédia, Dante relatou que sob a porta do Hades encontra-se a seguinte inscrição: “deixai, ó vós, que entrais aqui, toda esperança”. É dessa forma que me sinto ao sintonizar o programa eleitoral. Grosso modo, os candidatos limitam-se a dizer frases estilísticas como “conto com seu voto!”, associadas a sorrisos tétricos.

Não entendo como os partidos deixaram subverter-se dessa forma. Apesar das exceções, a maior parte dos pretensos “novos” candidatos aparenta estar muito distante do ideal libertador apregoado em 1823. Pobre Brasil.

>> Harder to breathe; Marroon Five; ...
>> Viva o Povo Brasileiro; João Ubaldo Ribeiro; Círculo do Livro

Thursday, August 21, 2008

Gonzo Kitchen: Pollo ao mel

"- Separe alguns pedaços de frango: coxas e sobrecoxas (recomendo Sadia);
- Não tempere*;
- Passe mel em cada pedaço - isso mesmo, mel (pode ser Karo, também fica bom);
- Deixe descansar por uma hora;
- Retire o excesso de mel;
- Agora, deixe um tempo no molho Shoyo (cerca de meia hora);
- Remova do Shoyo;
- Coloque em uma forma para assar;
- Fica no ponto quando a carne começar a "desgrudar" do osso;
- Arroz branco e salada caesar são boas companhias."

Frango gonzo, com mel e Shoyo. Barato, rápido e fácil de fazer. Experimente.

>> Version city; The Clash; Sandinista!
>> Viva o povo brasileiro; João Ubaldo Ribeiro; Círculo do livro

* a "receita" original manda não temperar. Eu, particularmente, creio que um pouco de alho nunca fará mal. Sal, a meu ver, pode ser dispensado: o Shoyo assume, sem desaforos, o lugar do velho cloreto de sódio.

Tuesday, August 19, 2008

Rumo ao Bronze

No Brasil, bronze é ouro. Bronzeadamente hilário!!

>> Contrastes; Luiz Melodia; Estação Melodia
>> Viva o povo brasileiro; João Ubaldo Ribeiro; Círculo do Livro

Sunday, August 17, 2008

Chariots of fire


Dento do espírito olímpico, segue vídeo com o nobre Eirc Mossoumbani na prova de 100 metros livres durante a Olimpíada de 2000, em Sydnei. O Sr. Moussambani foi um nadador que representou seu país, Guiné Equatorial, durante os jogos do início do século XXI e, conforme consta, transcendeu o ideal do Barão de Coubertin: depois de ver os opositores queimarem a largada - e serem desclassificados -, Eric nadou sozinho na piscina.

A classificação do “guiné-equatoriano” ocorreu por meio de um convite do comitê olímpico para incentivar países em desenvolvimento. Desnecessário dizer que o desempenho do nadador foi muito ruim: o rapaz, que treinava em uma piscina de hotel - com 22 metros - nunca havia visto uma raia de 50 metros. Ao longo do vídeo, a impressão que se tem é de que ele irá afogar-se.

Apesar de tudo, o moço segue em frente e termina a prova - ainda que aos trancos e barrancos. Seu esforço, entretanto, é visto pela dupla de comediantes australianos “Roy and HG” como algo digno de pena.

Os comentários e piadas dos dois apresentadores são emblemáticos do século XIX. “Go Eric, go, hahahahaha...”, é o que de mais sutil se escuta ao longo dos cerca de quatro minutos do vídeo. Pelo teor da apresentação, vigem as teorias do “fardo do homem branco”, do colonialismo e - sem exagero - do orientalismo. Lamentável.

Ainda em 1895, Kipling - um dos mais ativos poetas do colonialismo - escreveu: “há sessenta e nove modos de se compor odes tribais, e cada um deles é correto”. O escritor inglês não era, necessariamente, um crítico do modelo expansionista então em voga e, ainda assim, entendeu que a diferença existente entre os cidadãos do mundo era algo benéfico. Ao nadar como um bufão, Eric demonstrou estar além de eventuais preconceitos ultrapassados e à altura dos antepassados guerreiros da Guiné.

Seu desempenho gerou grande interesse sobre a outra competidora da Guiné Equatorial - Paula Barila Bolopa -, que competiu na prova dos 50 metros livres. Infelizmente, Barila nadou também muito mal, conseguindo somente o recorde histórico pelo tempo olímpico mais lento para a prova.

Moussambani, porém, incentivado por seu feito, voltou para casa e treinou forte. Após conseguir o índice olímpico para disputar os jogos de 2004, teve a entrada na Grécia negada devido a problemas burocráticos com o visto. Em meros quatro anos, Eric conseguiu diminuir seu tempo para menos de 57 segundos. Infelizmente, tolhido pelas circunstâncias, viveu um momento “dead on arrival” - em inglês mesmo, aos moldes do colonialismo.

>> Island in the sun; Weezer; Weezer (Green Album)

>> Viva o povo brasileiro; João Ubaldo Ribeiro; (...)

Thursday, August 14, 2008

Knocking on Heaven's Door

Caros, em momento algo inspirado, escrevi o texto abaixo. Faz algum tempo: cerca de dois ou três anos, em período de grandes mudanças na vida deste "redator".

O trabalho é de pena própria e redigido como mensagem de Natal aos amigos do Rio de Janeiro. Portanto, perdoem inperfeições, eventuais amadorismos e a evidente ausência de modéstia:

"Os amigos desculpem-me, ando relapso. Explico a ausência: os estudos a que me propus - cerca de ano e meio atrás - são extenuantes e, de quebra, houve a estréia num trabalho pelas bandas do planalto central. Trabalho demais noutras paragens, a falta de comunicação é indesculpável por cá.

Vergonhoso. Não há de repetir-se, espero.

De minha parte, houve ainda um procedimento a firmar: não foi tarefa simples abandonar a cidade de São Sebastião e estabelecer-se na muy bela e heróica cidade de Brasília, ao centro do país.

Os prezados sabiam que o Cerrado traz reminiscências? Ora pois, é fato.

Imaginem aqueles senhores, cansados da má sorte, aventureiros à procura de fortuna no planalto central, recém-chegados ao inferno seco. Imaginem-se vestindo as roupas que os costumes obrigam.

Então, imaginem um dia clássico de primavera. Céu azul-azul, calor fulminante para quem veste terno, um convite excessivo à praia ou à mata, à sombra, uma esperança de chuva que pode vir lavar a alma no fim de tarde. É setembro na Chapada. E já que estamos nessa, imaginem voismicês, “estrangeiros” recém-chegados, família a tiracolo, um dia destes no alto do prédio do Congresso, o Memorial JK ao longe, o calor e as roupas quentes – então, um devaneio leva em direção ao Leblon, onde está, desaguando na praia, o Atlântico salgado.

Não importa a que hora, estão lá as meninas, por vezes muitas e lindas, mergulhando com gosto porque o trabalho do dia já se foi. Não há culpa, há sorrisos, e você de paletós e casacas neste paraíso tropical.

O carioca entende. É o caminho para o trabalho passando pela Vieira Souto, aquelas meninas todas de biquíni em Ipanema, aquela praia convidando à cerveja e ao mergulho salgado. Ô cidade, Deus do céu. Chegou época de o Rio ser um pouco mais Rio, de céu azul e tempestade, de cheiro de terra e maresia – e aquela mata no caminho de todo dia está um pouco mais verde. E, quando o Vento Sudoeste chega violento vindo do morro Dois Irmãos, um prazer de toque, o mesmo prazer de ver como fica morena a moça ao lado. De manhã escureço, de dia tardo, de tarde anoiteço, de noite ardo.

É, estou de volta - ainda que por parcos quinze dias - mas de volta, desejando Feliz Natal e Ano Bom, junto ao costumeiro abraço."

O texto foi escrito em momento de retorno ao Rio de Janeiro. Férias dezembrinas. Revisitação aos amigos cariocas e à parte do passado. Daí a emoção.

Infelizmente, descreve um Rio de Janeiro que não existe mais. Uma pena.

>> A flor e o espinho; Nelson Cavaquinho; Unknown
>> 1602; Neil Gaiman; Pannini Books

Sunday, August 10, 2008

Война

Lá no Blog do PD, o melhor relato que vi sobre os eventos na Ossétia. A despeito de análises geopolíticas, diplomáticas ou militares, o que mais se perde em uma guerra é a simplicidade da vida:

“Um jornalista brasileiro, meu amigo do peito, esteve na Ossétia anos atrás. A situação estava tensa, com o Exército Russo dando proteção aos compatriotas e ossetianos amigos.

Junto com um colega europeu, acompanhando tropas russas que patrulhavam a área, ele se aventurou pelos campos a procura de aldeias e notícias. Loucos, esses jornalistas. Enfim, lá pelas tantas os dois entraram em uma espécie de paraíso na terra, segundo suas palavras:

Um bosque de macieiras brilhando na paz absoluta de uma tardinha agradável. No meio das macieiras, uma casa. Uma casinha, modesta. Dentro, o horror silencioso de um tipo de guerra que não sai nos jornais.

A casa estava vazia. Seus habitantes haviam fugido dos milicianos georgianos, deixando para trás suas terras, suas colheitas - e o avô. O ancião estava deitado no quarto, olhando para o teto, em profunda solidão.

No único móvel do quarto, uma cesta de frutas. Grande, generosa.

Como se os que partiram - e não levaram o velho, sabe Deus o motivo - estivessem pedindo : tratem bem dele, as frutas são prova de paz. Pelo menos, foi assim que meu amigo e o outro jornalista interpretaram tão insólito quadro.

Um pouco depois, tropas russas chegaram ao local e socorreram o idoso deixado para trás. Não havia sangue, gente estripada, queimada por bombas, ou outras barbaridades de uma guerra ”normal”. Mas doía da mesma maneira.

(...)

O oficial russo explicou que, na maior parte das vezes, a população daquela região tinha que abandonar suas casas às pressas, com a roupa do corpo - tendo que escolher entre levar uma criança ou deixar um velho doente para trás.

Fugiam andando. No máximo, uma carroça. Se não fossem rápidos, seriam fuzilados sem dó nem piedade. Guerra.

Imagine o que está acontecendo em campos iguais àquele atualmente. As maçãs vão apodrecer nas árvores"

>> Maps and Legends; R.E.M.; Reconstruction Of The Fables
>> 1602; Neil Gaiman; Pannini Books

Saturday, August 09, 2008

Gonzo Kitchen

"Ingredientes:
-mulher;

-bacalhau;

-espinafre;

-azeite;

-alho;

-cebola;

-batatas;

-sal;

-cerveja.

Modo de preparo:
Ponha a mulher na cozinha, com os ingredientes, e feche a porta. Tome cerveja durante duas horas e depois peça para ser servido. Complexidade mínima."

Bacalhau gonzo, à moda tupinambá,pois é.

>> Tarde em Itapuã; Gilberto Gil e Toquinho; Duetos
>> Eu fui Vermeer; Frank Wynne; Companhia das Letras

Sunday, August 03, 2008

21 Gramas

Prezados, acompanhem o valor do petróleo ao longo dessa semana: uma queda nos preços do óleo negro parece ser um dos elementos mais importantes no futuro próximo.

Conforme a cotação do óleo aproximou-se de $150.00, muito se discutiu acerca de como movimentos inflacionários iriam redefinir a economia global. Muito foi dito, também, sobre como os sauditas não desejam que tal perspectiva seja concretizada - uma grande recessão global não é do interesse da Casa de Saud. Dessa forma, espera-se que os sauditas pressionem os números para baixo.

O Reino da Arábia Saudita é um investidor pesado no mercado internacional, além de ser grande depositário em instituições financeiras, hedge funds e bancos privados ao redor de todo o planeta. Atualmente, o Rei Abdallah é o maior investidor individual - e líquido - em cena, tendo, assim, interesses e meios para administrar o preço global que escolher para o petróleo. Apenas como lembrete, vale ressaltar que existem, hoje, muitas instituições financeiras que não são governadas pelas leis européias ou norte-americanas. Totalmente livres, portanto, para funcionar ao arrepio dos sistemas mundiais de controle criados no pós-Segunda Guerra.

Malgrado os motivos que pressionarão o preço do petróleo para abaixo da linha vermelha, o valor hoje vigente - perto de $120.00 o barril - parece estar perto da zona de desconforto para muitos agentes no mercado. Grosso modo, o sistema tende a preferir um valor mais elevado.

De qualquer forma, um ajuste fino sobre o preço do barril é algo imbricado. Decerto, os Sauditas aparentam preferir um valor ao redor dos números atuais. Porém, muitas forças estão em atividade: caso o preço caia abaixo de $120.00, estaremos de volta à faixa onde o petróleo não é crítico para a economia planetária; caso o valor aproxime-se - ou ultrapasse - $150.00, então a crise estará em atividade novamente. Dessa forma, senhores, verifiquem vossos estoques de anti-hipertensivos: medir a cotação da commoditie pode recomendar corações fortes.

>> Eu tive um sonho; Kid Abelha; Acústico MTV
>> Rio das Flores; Miguel Sousa Tavares; Companhia das Letras

Friday, August 01, 2008

Iluminados Pelo Fogo

A Argentina vive período de sensíveis dificuldades políticas e econômicas. Sobretudo, o país atravessa momento de especial tensão devido aos fracassados esforços da Presidente Cristina Kirchner em busca da aprovação de sua lei de taxas aduaneiras para produtos agricultáveis. Além disso, o país enfrenta pressões inflacionárias, crescente débito e uma crise no setor energético. Não fosse pouco, o governo da presidenta Kirchner ainda lida com delicadas fraturas em sua sustentação política. A meu ver, em face desse conjuntura controversa, um eventual colapso argentino – nos moldes do ocorrido no governo de Fernando de La Rúa – traria implicações profundas ao continente latino-americano.

Grosso modo, a Argentina vem perdendo grande parte da relativa paridade que sempre manteve com o Brasil ao longo da história. Dado que são os maiores e mais ricos países do continente sulino, ambas as nações têm um passado de “vigilância” mútua. Entretanto, a balança de poder parece estar lentamente tendendo para o Brasil - e uma completa instabilidade portenha ameaça tornar permanente tal movimento.

O crescimento brasileiro nos anos recentes tem sido invejável: petróleo e políticas fiscais viáveis são apenas alguns exemplos. Ademais, a influência regional brasileira mostra-se em contínua e positiva expansão, particularmente nas fronteiras próximas e em relação à Uruguai, Paraguai e Bolívia – países encarados como “buffer states” pela Argentina e pelo Brasil. De forma genérica, Brasília e Buenos Aires tentam manter essas três nações livres de influência externa. Com algum desgosto, a Casa Rosada tem falhado em suas iniciativas de aproximação aos três Estados e o que se percebe é um fortalecimento verde e amarelo.

Somado a esses fatos, o Brasil tornou-se o maior investidor único na Argentina ao longo do último ano. Assim, parece-me que se os pampas quedarem-se envoltos em uma crise financeira, o maior beneficiado será o Brasil. No sentido de que tornar-se-iam facilitadas as compras de falidas empresas argentinas por parte de companhias brasileiras.

Um insucesso argentino, no entanto, não se daria isolado: aparentemente, o líder venezuelano, Hugo Chavez, atou-se ao destino de Buenos Aires quando decidiu subsidiar parte substancial do débito portenho. Se a Argentina realmente enfrentar uma crise financeira, a hoje instável economia “bolivariana” também decairia à reboque – e vice-versa: uma quebra em Caracas ameaçaria a estabilidade do débito argentino. Nada mais latino-americano do que nunca.

Dessa vez, no entanto, a diferença é que o Brasil demonstra estar pronto para assumir uma eventual liderança continental – o que configura uma enorme diferença no tabuleiro geopolítico. Com o colapso no Prata e o crescimento no Planalto, a geopolítica sulina deverá ser totalmente remodelada.

>> Speed of sound; Coldplay; Rádio Câmara
>> Blog do Lampreia ; ao que parece, o honroso ex-chanceler tupinanbá mantém um bom site na rede.

Tuesday, July 29, 2008

Curtas

:: Berliner
O clichê é óbvio, mas irresistível: a foto de Obama em Berlim ficou uma finura.

:: No Nukes
Há de ser uma piada a notícia veiculada pelo NYT: Henry Kissinger defendendo a diminução das armas nucleares? Prefiro acreditar em ruído jornalístico do que na teoria de que "They are trying to shock sensibilities". Na verdade, parece-me muito mais um modo de adaptar a política da contenção para o nosso tempo. Nas palavras do jornal:

"In two opinion articles in The Wall Street Journal, they described a frightening new world of ever-expanding nuclear appetites, in which traditional deterrence no longer works. They argued that the only way for the United States to rally the cooperation it needs to confront such dangers is with a clear commitment to the goal of a world without nuclear weapons."

De qualquer forma, é estranho ver o mestre diplomata contrariar quase tudo que afirmou ao longo da vida. Muito estranho.

>> Faz de Conta; Engenheiros do Hawaii; Novos Horizontes - Acústico
>> Rio das Flores; Miguel Sousa Tavares; Companhia das Letras

Friday, July 25, 2008

Cry Of The Forgotten Land

Quando as pessoas perguntam-me sobre meus pensamentos acerca do Rio de Janeiro, sinto sempre um certo desconforto. Carioca desterrado, sei como supostamente devo responder: com tristeza, desapontamento e, talvez, raiva. Invariavelmente, entretanto, tento desviar do assunto, ou falar de forma mais neutra possível.


Isso porque, no fundo, a violência na cidade nunca me atingiu diretamente – ou a meus amigos. Meus contemporâneos e eu sempre tivemos relativa indiferença frente aos tiroteios; os horrores dos crimes e suas implicações demoníacas soavam distantes, estrangeiros até. Na verdade, a violência era, simplesmente, um flash que marcava a descontinuidade característica da degradação na antiga capital federal.


Em 2004, quando vim morar em Brasília, anos antes das atuais bestialidades, o Rio de Janeiro era, ao menos para mim, um lugar onde ainda se podia viver. Apesar da violência já latente, creio que as pessoas de minha geração viam os bandidos – e toda a noção de patologia social – como alienígenas. A ardente crença no distanciamento da brutalidade era vista, em nossa entediada consciência “burguesa”, como eco de um acreditar romântico na violência. Para nós, os brutos e assassinos jamais deixariam os morros para se aventurar na maravilhosa Zona Sul. Tais memórias faziam parte de meu imaginário até recentemente.


Semana passada estive no Rio de Janeiro para visitar meus pais e, para dizer o mínimo, fiquei desesperançado. As principais referências ao passado idílico outrora mantidas em minha cabeça simplesmente desapareceram. Hoje, a violência e suas crises estão de tal forma instaladas na cidade que, ouso dizer, transformaram-se no equivalente cultural de música de elevador – tamanha a indiferença com a qual a população trata o problema.


De fato, o carioca é incomum em sua habilidade de atar choques e distúrbios, gradualmente fazendo deles uma coisa neutra. Ao contrario do senso comum, entretanto, o imaginário “bandoleiro” na cultura 021 não é muito diferente dos traficantes com fuzis AR-15 que esbarram em você nos bailes funks ao redor da cidade: as armas e as músicas presentes nesses locais são uma declaração moral, não estética como querem fazer crer certos sociólogos.


O problema é de tal forma tamanho que alguns organismos internacionais estão elevando os protocolos de segurança adotados para a Cidade Maravilhosa. Por exemplo, a fim de orientar as viagens de seus funcionários, as Nações Unidas têm uma escala de níveis de segurança começando na "Fase 1" (Precaução) e terminando na "Fase 5" (Evacuação). Desde fins de 2006 o Rio de Janeiro foi classificado como local "Fase 1". Dessa forma, funcionários em viagem para lá, mesmo que a passeio, precisam preencher um formulário avisando o Departamento de Segurança da ONU quando ocorrerá o “passeio”, em que vôo e horários, qual o local de hospedagem, quais os acompanhantes, e qual a data de retorno. Tudo isso no intuito de possibilitar a evacuação do funcionário com rapidez e segurança caso seja agravada a situação.


Nos documentos, há uma seção "Travel Advisories" em que um texto realista alerta acerca dos riscos que se assume ao ir ao Rio de Janeiro. Vale citar um trecho:

“As forças de segurança conduzem freqüentes operações armadas contra facções do tráfico de drogas que estão em controle de diversas favelas espalhadas pela cidade. Balas perdidas, rajadas de balas e o indiscriminado uso de munição de alta velocidade e armamento pesado podem transformar qualquer favela num cenário perigoso e volátil, especialmente no caso de intervenção da polícia ou conflitos entre diferentes facções de traficantes. Visitantes são mais vulneráveis a tais incidentes devido ao seu desconhecimento do local e falta de experiência. Portanto, todos os viajantes são aconselhados a evitar a proximidade das favelas. Adicionalmente, tem havido um aumento de assaltos à mão armada nas vias de acesso do Aeroporto Internacional à Zona Sul, onde a maioria dos visitantes internacionais ficam. Evite passar à noite na Linha Vermelha ou Linha Amarela, que são vias expressas ligando o Aeroporto Internacional à Zona Sul, o centro da cidade e subúrbios. Se você desembarcar no Aeroporto Internacional durante a noite, considere passar a noite no Hotel do Aeroporto. Enquanto no Rio de Janeiro, dê preferência a rádio-táxis registrados já que eles são considerados os mais seguros, ou peça orientações ao concièrge do seu hotel. Devido a disputas em curso com os controladores de tráfego aéreo, vôos podem se atrasar, serem cancelados e/ou desviados de seus destinos iniciais. Assim, viajantes chegando ou fazendo conexões em vôos no Rio de Janeiro são aconselhados a requerer um security clearance mesmo que não haja expectativa de deixarem o Aeroporto. (...)”

Como se percebe, a situação é grotesca. E pode piorar ainda mais: recente reportagem do jornal “O Globo” afirma que traficantes da Rocinha estão formando associações com o MST, especialmente com um de seus líderes, José Rainha. Decerto, a cidade não é para amadores e o assunto parece ainda estar muito longe de ser resolvido.

 

>>Little by Little; Oasis; The Best Bands Ever

>> Travessuras da Menina Má; Mário Vargas Llosa; Alfagarra

p.s.: dado que o livro citado acima é editado pela Alfagarra, lembro post anterior para dizer que o jornal El País está sendo impresso no Brasil. Agora, com preços realísticos, é possível ler um dos melhores jornais do planeta também em terras tupiniquins. Não consigo imaginar iniciativa mais poderosa para um "esforço pela integração cultural".

Saturday, July 05, 2008

Sunny Days Rules #1

Jamais confie em alguém que use pochete. Agravante: quanto maior o tamanho da antipática bolsinha, menos confiável é o bípede que a utiliza.


>> Disco Lies; Moby; Last Night
>> O Santo Sujo - A Vida de Jaime Ovalle; H. Werneck; Cosac Naify

Friday, July 04, 2008

FLIP



"Bebo pra caralho e escrevo socialmente", diz o ótimo Xico Sá no video acima. Continua ele: "escrever é minha forma de humilhar Gisele Bundchen". Apesar de utilizar-se do "pra", contracto, o sujeito merece aplausos. 

Xico Sá e Humberto Werneck, em encontro na FLIP, conversam ao longo de oito minutos sobre o excelente livro "O Santo Sujo - A Vida de Jayme Ovalle", escrito por Werneck e ora lido por mim. Obviamente, o livro é mais do que recomendado.

Além da primorosa edição da Cosac Naify, a publicação traz a história de um sujeito até então pouco conhecido nos meios off-literários, mas de extrema importância para nossos autores pós-1922. Como diria Guimarães Rosa: o Brasil tem desses "deslembramentos"

O biografado, grosso modo, é uma figuraça que estimula verves ácidas e fleuma britânica - não que isso pareça uma contradiçao per se. Os prezados entederão o que digo caso aventurem-se pelas páginas do livro.

>> Sonífera Ilha; Paralamas e Titãs; Juntos e ao vivo
>> O Santo Sujo - A vida de Jaime Ovalle; Humberto Werneck; Cosac Naify

Monday, June 30, 2008

Os Outros: Mia Couto

"Seguindo o voo do fumo, o olhar do médico é suficientemente reprovador para dispensar a habitual reprimenda.
- Não sou eu que fumo, Doutor Sidonho. O cigarro é que me está fumando a mim.
- Nisso estamos de acordo. O senhor não devia tocar mais em cigarro.
- O senhor me desculpe, mas o senhor não entende o fumar.
- Não entendo como?
- Não é o tabaco que a gente consome. A gente fuma é a tristeza."

Mia Couto, escritor moçambicano, em um dos ótimos momentos de seu recente livro: "Venenos de Deus, remédios do Diabo". Diria eu que o senhor Couto é, hoje, um dos maiores escritores na língua portuguesa.

Reparem que mantive a ortografia original, adotada em Moçambique. A propósito, o livro foi lançado simultaneamente em Portugal, Moçambique e aqui no Brasil. Penso que iniciativas como essa revelam o grande filão do mercado lusófono nos tempos porvir.

Graças aos esforços da CPLP, tem sido possível integrar o idioma e, a partir daí, lançar estratégias de mercado conjuntas em todos (ou alguns) países que usam a "flor do lácio" como idioma. A despeito dos gramáticos tupiniquins - que continuam teimando com o uso de tremas, hiféns e que tais -, a integração tem avançado muito, sem perda de identidade para os países da comunidade de língua portuguesa.

Para os que ainda são contra a integração linguística, basta lembrar que o espanhol ganhou espaço mundial justamente após os enormes esforços da Real Academia Espanhola em integralizar o idioma - razão pela qual a Alfaguarra é, atualmente, uma das maiores editoras do planeta. E não foi sem propósito que a mesma Alfaguarra comprou parte da Editora Planeta: exatamente pensando no grande potencial de um mercado luso-parlante integrado em uma só base linguística.

>> Venenos de Deus, Remédios do Diabo; Mia Couto; Companhia das Letras
>> Planeta Sonho; 14 Bis; 14 Bis ao Vivo


Sunday, June 22, 2008

Os Outros: The Hours

"- Tell me a story.

- What about?

- Tell me a story from your day.

- I... I got up...and...I went out...and went to buy flowers...like Mrs. Dalloway in the book, you know.... and it was a beautiful morning...

- Like a...like a morning on a beach?

- Oh, yes.

 

-Like that?

- Yes.

- Like that morning...when you walked out of that old house and you were eighteen...and maybe I was nineteen.

- Yes.

- I was nineteen years old...and I'd never seen anything so beautiful. You, coming out of the glass-door in the early morning still sleepy.

- Isn't it strange?

- The most ordinary morning in anybody's life... I'm afraid I can't make it to the party, Clarissa.

- The party...doesn't matter.

- You've been so good to me, Mrs. Dalloway... I love you. I don't think two people could've been happier than we've been."

Esse, pois, é um dos diálogos ao final do belíssimo "The Hours", com Nicole Kidman em atuação impagável.


>> Turn you inside-out; REM; Green

>> Juventude; J. M. Coetzee; Companhia das Letras

Friday, June 20, 2008

Back 4 More


Mês passado, a marinha norte-americana anunciou que tem planos concretos de re-engajar a 4a Frota. Baseados na Flórida, os navios – que patrulham as Américas Central e do Sul, além do Caribe - devem estar ativos a partir de 1o de julho desse ano. Dada sua imensa importância, penso que o tema merece algumas considerações.


A 4a frota foi criada, em 1943, para ajudar na segurança regional – principalmente no contexto da II Guerra Mundial. À época, o isolamento e a paz regional eram elementos chave para a política internacional norte-americana. Após o fim da Guerra, a cena geopolítica alterou-se drasticamente e não havia mais necessidade de presença tão ostensiva na America Latina. Grosso modo, os interesses dos EUA migraram para a contenção do comunismo e da influência soviética: dado que havia mínima competição pela hegemonia militar no sul, os armamentos foram desviados para outras localidades (o Mar Mediterrâneo, por exemplo).


Atualmente, entretanto, tal tendência parece estar se revertendo. Apesar de a re-implantação da frota não representar um inicial aumento no número de combatentes, haverá, por agora, um crescimento no staff da região. Rumores dão conta, também, de que a base na Flórida irá abrigar um Porta-Aviões nuclear. Portanto, leia-se: em um primeiro momento haverá crescimento da atividade de inteligência relativa à região.


Apesar de os EUA manterem uma constante presença naval no Sul, tal movimento aparenta ser um relevante indicador da natureza bélica estadunidense. Sobretudo, o ressurgimento da frota parece indicar a maneira pela qual o país pretende interagir com a região no futuro próximo.


Decerto, pouca coisa alterou-se no teatro geopolítico da área de responsabilidade da frota: os EUA ainda detém completa hegemonia naval na região - e no mundo. Desde o final da Guerra Fria, entretanto, um crescente número de países vem expandindo sua influência naval.


Nesse caso específico, o Brasil tem envidado esforços consideráveis no sentido de expandir seu poder marítimo regional – nosso projeto de submarino nuclear é bom exemplo do que falo. Parece-me que, com uma renovada presença na região, os Estados Unidos desejam engajar o Brasil em favor da manutenção da tradicional cooperação bi-lateral logo no “início do jogo”. Assim, a volta da 4a frota pode ser percebida como o desejo de manter a aliança com o Brasil, lidar com a crescente atividade militar na região e manter a segurança marítima em um contexto de desenvolvimento do hemisfério oriental.


Penso que outra mudança importante a influenciar a iniciativa estadunidense é o desenvolvimento do comércio internacional, especialmente no quesito energético. As recentes descobertas petrolíferas em águas brasileiras sugerem expressivo crescimento do peso geopolítico do Brasil e da região Latina. Com o aumento do trânsito regional e global esperado para os anos futuros, os EUA podem estar preparando um suave desembarque geoestratégico, conforme a importância da região seja adensada.


O renovado foco de Washington parece representar uma adaptação às rápidas mudanças da cena geopolítica mundial. Nesse cenário, as Cassandras poderiam dizer que a política dos EUA remete ao período pré 2a Guerra Mundial. Grosseiramente, algo como: “vamos preservar os nossos porque o futuro, nunca se sabe...”. Entretanto, como diria Chesterton: se há algo que sabemos da história, é que essa não nos ensina nada. O futuro dirá o que a mudança representa.


>> Xamego; Luiz Gonzaga e Fagner; Luiz Gonzaga

>> Juventude; J. M. Coetzee; Companhia das Letras

Monday, June 16, 2008

Os Outros: Adolfo García Ortega

“Auschwitz está demasiado cerca.

Hurbinek, por ejemplo, de haber sobrevivido tendría hoy cincuenta y nueve años. No sería muy mayor, a decir verdad, y tal vez gozara de buena memoria, de una torturante buena memoria que le traería esas terribles pesadillas, frecuentes en quienes han pasado por los campos nazis, en las que una y otra vez sólo les devora el hambre, el hambre y el hambre. Sus nietos, seguramente, serían pequeños aún, a lo sumo adolescentes que lo respetarían. Tendría un buen trabajo, adecuado a sus características físicas, en Polonia o en Hungría, o quizás en alguna ciudad rusa, y sería pronto para él oír hablar de la jubilación. No, Auschwitz todavía no está demasiado cerca. No es tan irreal como lo pueden ser en los libros de texto Trafalgar, la Revolución francesa o Waterloo. Hay supervivientes. Aunque Hurbinek no sea uno de ellos.”

Esse é o primeiro parágrafo de "El Comprador de Aniversarios", livro que ora leio. Escrito por Adolfo García Ortega, a obra simula a vida de um garoto judeu, de nome Hurbinek, que morreu em Auschwitz com três anos. 

Mencionado em "A Trégua", de Primo Levi, como alguém de quem não se sabe nada em absoluto, o pequeno Hurbinek tem sua vida fantasiada nesse interessante livro do Sr. Ortega. Fica, portanto, a recomendação.


>> Death and all his friends; Coldplay; Viva La Vida (cd excelente)

>> El Comprador de Aniversarios; Adolfo García Ortega; Booklet

Friday, June 13, 2008

Gonzo Kitchen

Receita inusitada de pizza de aspargus com, lógico, aspargus e laranja. O segredo é torrar a massa, no forno, até que ela fique quase pronta. Daí, adicione os ingredientes e deixe tostar por cerca de dois minutos. Dessa forma, o queijo de cabra não irá secar.

"Asparagus, Goat Cheese and Orange Pizza
makes 2 pizzas

1 lb. asparagus, washed, trimmed into 2-inch pieces
6 ounces goat cheese
Milk
1 tablespoon orange zest
1/4 cup hazelnuts, toasted and chopped
1 batch of Homemade Thin Crust Pizza (or 1 package of prepared dough)
olive oil
walnut oil (optional)
salt
Trader Joe's Orange Muscat Champagne vinegar, for drizzling


Pre-heat oven to 500. Bake dough alone, removing before the final 2-3 minutes of baking.

Meanwhile, heat a grill pan over medium-high heat. Toss asparagus with a little olive oil and grill until slightly tender, about 5 minutes. Remove from heat and set aside.

Place goat cheese in a small bowl and add a splash of milk. Mix until combined, adding a little more milk as necessary – just enough to make it spreadable. Add orange zest and a dash of salt.

Spread goat cheese mixture onto par-baked crusts and top with asparagus and hazelnuts. Brush crust with walnut oil, if desired. Bake for another 2-3 minutes. Drizzle with Orange Muscat Vinegar before serving."

>> Death and all his friends; Coldplay; Viva la vida
>> Direito Constitucional; Pedro Lenza; Editora Saraiva

Tuesday, June 10, 2008

Yes!!

>> Ronca Ronca; Ao vivo; Oi FM

>> Juventude; J. M. Coetzee; Companhia das Letras

Monday, June 02, 2008

Página 201

"Datada de Philadelphia, de 29 de julho, apparecia uma carta de Lardner Gibbon, explorador do Madeira, ao Sr. Don Carlos Bridoux, commerciante de Cochabamba na Bolívia, concessionário de vastas terras na base dos Andes bolivianos.
A carta vinha intitulada "Andes and Amazon Basin".
Desde o começo, prevenia Gibbon ao commerciante, curioso de conhecer as possibilidades de tráfico pelo Madeira que: "I hope my answer will prove satisfactory as a rational result of my observations, if not the most agreable to you as a merchant".
A carta é objectiva. Descrevia as riquezas da região andina e da amazonica junto as deficiências e as difficuldades.
A these do explorador oficial era que, em princípio, a melhor sahida commercial da Bolivia não era o Pacifico, mas o Atlantico, pelo Amazonas.
No dia em que os productos bolivianos sahissem por essa porta fluvial, o paiz começaria a contar no concerto das nações...."

A página 201 do livro "A Liberdade de Navegação do Amazonas", de Fernando Saboia de Medeiros. Editado em 1938, o texto evidencia que, desde o século XIX, a Amazônia era um sério problema.

>> Foi o mordomo; Cinema mudo; Paralamas do Sucesso

>> Meu nome é vermelho; Orhan Pamuk; Companhia das Letras  

Sunday, June 01, 2008

John Adams


Recentemente, assisti uma minissérie primorosa da HBO: John Adams. Na verdade, foi por acaso que descobri a produção. Porém, após os dois primeiros episódios, minha atenção estava totalmente tomada.

Apesar de o título centrar-se na vida do segundo Presidente dos EUA, a força do filme surge da própria narrativa da formação dos Estados Unidos. Foi impressionante ver George Washington, Thomas Jefferson, Alexander Hamilton e Benjamin Franklin praticamente redivivos na produção primorosa.

O mais interessante foi que o drama da improvável independência americana mostrou-se a partir da ótica de homens comuns, com suas individualidades e desafios familiares. São impagáveis os trechos nos quais “simplórios” colonos americanos vão às decadentes cortes européias: recebidos com desdém, esses mesmos homens fundaram o maior ideal de democracia da idade moderna. Outro ponto alto é a quietude demonstrada pelo ator que interpreta Thomas Jefferson, mais preocupado com as palavras no papel do que com as faladas ao público.

Dado o atual estado das coisas, deveria ser obrigatório gastar algum tempo para assistir a série. É refrescante ver que pessoas, mesmo imperfeitas, verdadeiramente preocuparam-se com o futuro da liberdade. 

>> Think I'm in love; Beck; The information

>> Meu Nome é Vermelho; Orhan Pamuk; Companhia das Letras

:: A foto acima é propriedade da HBO

Saturday, May 10, 2008

H2O


A The Economist dessa semana traz reportagem de duas páginas sobre o questão da água e sobre conflitos pretensamente iminentes acerca do domínio dos rios. A atualidade e o interesse do tema valem uma boa discussão.

Ao contrário do que pensa o senso comum, a idéia de exércitos marchando em batalhas pela água não é tão crível como se acredita. De acordo com a revista, há forte evidência do contrário: há mais cooperação do que conflito nas quase 270 bacias hidrográficas trans-fronteiriças espalhadas pelo mundo. O numero impressiona quando se imagina que tais bacias cobrem quase metade da superfície seca do planeta.

Exceto por algumas regiões tensas (o Tigre e o Eufrates entre Turquia, Síria e Iraque, por exemplo), a revista apresenta inúmeros casos onde o partilhar da água é pacífico. A África é emblemática nesse quesito: quanto maior o número de países por onde um rio passa, maior é a cooperação regional no continente.

Aqui no Brasil a situação não é muito diversa. Temos uma legislação bastante avançada no assunto das bacias hidrográficas trans-fronteiriças. Por compreender grande porção territorial em situação de fronteira com outros países, especialmente na região amazônica, o Brasil consignou essa preocupação no Tratado de Cooperação Amazônico , assinado em 1978 por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Em seu artigo V, o tratado estabelece: “tendo em vista a importância e multiplicidade de funções que os rios amazônicos desempenham no processo de desenvolvimento econômico e social da região, as partes contratantes procurarão envidar esforços com vistas à utilização racional dos recursos hídricos”.

Alem do mais, conforme a lei brasileira, os Comitês de Bacia Hidrográfica são compostos por representantes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios cujos territórios se situem em suas áreas de atuação, dos usuários das respectivas águas e das entidades civis de recursos hídricos com comprovada atuação na bacia. A lei avança ainda mais, afirmando que, nas situações onde haja bacias de rios fronteiriços e trans-fronteiriços de gestão compartilhada, a representação da União deverá incluir um representante do Ministério das Relações Exteriores. Portanto, o interesse pátrio ocorre em níveis elevados no que tange à administração pública. De qualquer forma, não poderia ser diferente, dada a extrema importância do tema.

Sobre a questão das águas, gosto sempre de lembrar a metáfora criada pelo mestre Alberto da Costa e Silva. Ao denominar o oceano Atlântico como um rio entre Brasil e África, o historiador determinou que a imensidão de água entre os dois “continentes” mais os une do que os separa, exatamente como descobriu a revista inglesa. 

>> Iris; Miles Davis; E.S.P.

>> Dossiê Drummond; Geneton M. Neto; Globo

Friday, May 09, 2008

Concentração

Para os que não sabem, o termo “campo de concentração” é um invento espanhol. Advém dos campos de “reconcentração” do militar cubano Valeriano Weyler, que os habilitou na ilha durante a sublevação independentista de Martí, em 1895. A idéia era internar a população civil a fim de que essa não se sublevasse. O intento, porém, foi catastrófico: a fome e as doenças mataram milhares de pessoas, a maioria mulheres e crianças.

Tempos depois, os britânicos copiaram o invento: em 1899 o exército da Rainha utilizou-se da técnica contra os Boers, na África do Sul. O resto, foram o século XX e a história. Sempre ela.

>> Dossiê Drummond; Geneton M. Neto; Globo

>> Fix You; Coldplay; X&Y

Saturday, May 03, 2008

Página 201

"E se Carlos Drummond de Andrade abrisse, em companhia de um amigo de juventude, o escritor Cyro dos Anjos, uma agência especializada em fornecer aos interessados todo tipo de texto? A idéia não foi adiante. Mas mereceu um registro no diário pessoal de Drummond, no dia 27 de março de 1960: "Meu compadre Cyro dos Anjos anuncia-me sua próxima partida para Brasília. Devemos aposentar-nos no fim do ano e eu lhe falo de um possível 'rumo novo' para depois. Temos tanta experiência acumulada em gerir interesses de outrem, por que não aplicá-la em proveito de nós mesmos? Qualquer coisa assim como uma pequena agência de publicidade intelectual, que fornecesse a interessados o de que eles necessitassem: discursos, artigos, contos, poemas, cartas... Redigir é o nosso forte, e ganhar dinheiro, o nosso lado incompetente".

Essa, pois, é a página 201 do livro mais próximo deste que vos tecla. No caso, "Dossiê Drummond", de Geneton Moraes Neto, editado pela Editora Globo.

>> Hairshirt; R.E.M.; Green

>> O Anjo Pornográfico; Ruy Castro; Cia das Letras

Monday, April 21, 2008

Sobre Jatobás, Nardonis e a Mídia Enlouquecida

"Hoje eu sinto muita dificuldade para fazer reportagem policial. Sinto-me usado, quando o papel do repórter teria de ser outro; ele teria que fiscalizar a polícia e ajudar a sociedade. Hoje você acaba sendo uma espécie da ponta-de-lança da polícia. Se a polícia apresenta uma pessoa como sendo um “grande bandido”, você acaba embarcando e divulgando essa versão, e muitas vezes prejudica a vida desse suposto bandido ...".

Valmir Salaro, 1996.


Os desdobramentos do caso da menina Isabella Nardoni transformaram seu assassinato em um show de horrores. Associado a isso - e por meio das poderosas ferramentas da mídia -, todo o país converteu-se em um imenso romance policial de segunda.


A violência contra a pobre garota - o real elemento a ser debatido - vem sendo gradativamente esquecida. A morte da menina, propriamente dita, já não horroriza ou comove: esganada e atirada do sexto andar, Isabella tornou-se coadjuvante. A partir do enfoque da mídia, a vitima importa menos do que seus assassinos.


Uma das funções essenciais da imprensa é mostrar a verdade sobre o que ocorreu. Porém, nesse assassinato, não se quer a verdade, prefere-se acusar, julgar e terminar o assunto – pronto, qual é a manchete de amanhã?


(Trecho editado)


A imprensa pode colaborar na descoberta da verdade e informar à população, mas não pode arvorar-se o direto de julgar. A verdade material, só pode ser apurada por meio da justiça. Fazer justiça é a única maneira de encerrar horrores como os que ocorreram com Isabella (e pelos quais pouca gente está realmente se importando). Ainda assim - e esse é um debate clássico na teoria do direito -, mesmo a justiça tem dificuldades para chegar à verdade material, aos fatos como eles realmente aconteceram. Dados os imensos questionamentos e dúvidas presentes no caso, é sensato pensar que teremos de nos contentar com algum tipo de verdade formal, aquela que representa os fatos junto ao processo judiciário, limitada aos autos.


De forma lamentável, ao contrário do que ocorreu há pouco mais de um ano, quando o menino João Hélio foi despedaçado pelas ruas do Rio, Isabella passou a ser mero pretexto para despertar o espírito detetivesco, tanto dos mediadores como dos mediados.


>> Rádio Eldorado; Ao Vivo

>> A Raiz das Coisas - Rui Barbosa e o Brasil no Mundo; Carlos H. Cardim; Civilização Brasileira

Wednesday, April 09, 2008

Gonzo Kitchen

Stuff
- Filé, grande;
- Sal grosso e pimenta;
- Grelha, muito quente;
- Frigideira, também muito quente (de preferência, velha e sem cabo).

Modus operandi
- Coloque a frigideira no forno quente até avermelhar o metal;
- Tire a frigideira do forno e ponha sobre o bico do gás, aceso;
- Leve o filé à frigideira. Após tostar, vire o lado da carne;
- Para acertar o tempero, junte o sal grosso e a pimenta;
- Remova da frigideira e finalize na grelha.
 Steak gonzo, pois é. Recomenda-se o uso de grossas luvas culinárias.

>> Mensagem de Amor; Paralamas; O Passo do Lui

>> A Raiz das Coisas; Carlos Henrique Cardim; Civilização Brasileira

Tuesday, April 08, 2008

Os Outros: Edward Gibbon

"It has always been my practice to cast a long paragraph in a single mould, to try it by my ear, to deposit it in my memory, but to suspend the action of the pen till I had given the last polish to my work."

Segundo dizem, foi o mestre Edward Gibbon quem ensinou Churchill a escrever.

>> Supernatural Superserious; R.E.M.; Accelerate

>> The Economist

Friday, April 04, 2008

Segurança Nacional, Direitos Civis e Dossiês

Nosso noticiário político tem colocado em pauta um dilema bastante interessante para a democracia. Principalmente após a liberação do dossiê “Dilma” e desde o episódio da Caixa Econômica (envolvendo o caseiro Francenildo e o Ministro Palloci), passou-se a questionar até que ponto a segurança nacional pode intervir nos direitos civis. Em uma democracia recém-emancipada, como a nossa, tal debate nunca é irrelevante.

Em ambos os casos, houve sempre um vazamento de dados ou elementos que deveriam pertencer unicamente ao governo. Levando a uma pergunta óbvia: como a imprensa descobriu informações que dizem respeito exclusivamente ao governo? De certa forma, é correto assumir que os jornais não vivem realizando operações secretas contra o governo. Portanto, algum indivíduo entregou as histórias à imprensa. Ou seja, alguém com um elevado certificado de segurança vazou segredos da União.

Atualmente, acostumados com o conceito de invasão de privacidade (revistas, paparazzis, internet), tornamo-nos tão anestesiados com tais vazamentos que praticamente não discutimos as reais implicações do que tem acontecido: o governo vem liberando - a critério próprio - informação que deveria ser secreta. Quaisquer que sejam os responsáveis por tais “leaks”, o que presenciamos é uma extraordinária ruptura por parte daqueles que deveriam justamente proteger esse tipo de material.

No caso mais recente (o dossiê Dilma-FHC), a razão principal para os ataques foi a pretensa candidatura da Ministra Roussef ao Planalto, em 2010. O soerguimento de Dilma trouxe intensas críticas tanto da oposição quanto de parte da própria base do governo, que acham a escolha da Ministra inapropriada. O vazamento das despesas do Presidente Fernando Henrique foi, obviamente, uma maneira de tentar abater essa indicação - o que deve funcionar. Porém, o que importa aqui não é o opróbrio de Dilma, mas o fato de que o governo perdeu o controle de uma parte de seu staff. No cerne do debate, está o argumento de que o vazamento não é tão interessante por si só, mas que o mais importante é ter o governo contribuído para a reunião de informações tão relevantes sem sequer ter-se perguntado se isso não representava um sério gravame à liberdade.

No âmbito da ameaça à liberdade, é impossível imaginar que devassas individuais como as que têm acontecido não ponham nossa democracia em perigo. Decerto, dada a própria ambigüidade do conceito de liberdade, um bom debatedor poderia argumentar para ambos os lados (segredos de estado ou liberdades civis). A despeito do que diz a lei, porém, o dicionário Aurélio registra liberdade como a “faculdade de praticar tudo quanto não é proibido por lei”.  As recentes ações violam, portanto, tal conceito. O maior problema, nesses casos, é que se perde a previsibilidade sobre o que o governo fará com as informações que coleta.

Fique claro, porém, que discuto aqui não uma doença da democracia. O vazamento de informações sigilosas é um problema de governo e não de Estado. Governos (o atual ou qualquer outro) não são particularmente confiáveis na maneira como usam leis e informações. Ressalve-se, também, que crimes contra o patrimônio público (a farra com os cartões corporativos, por exemplo) precisam ser duramente perseguidos. O problema é que tais ilícitos devem ser combatidos dentro do rigoroso sistema de devido processo legal. Nossa atual Constituição, tentando sanar equívocos do passado, baseou-se na premissa de que o governo pode ser tão perigoso quanto criminosos comuns. Portanto, foram criados mecanismos que circunscrevem os poderes do Estado para que ações extremadas não ocorram. Grosso modo, tais instrumentos têm funcionado muito bem, garantindo a saudável estabilidade do país. Os arroubos atuais, contudo, são arrepiantes. 

A famosa afirmação dos inconfidentes mineiros, “liberdade ainda que tardia”, é uma premissa fundamental de nossa nação. Todavia, a complexidade do mundo moderno recomenda que a permuta entre liberdade e segurança seja debatida: vazamento de informações confidenciais é o sintoma de um perigoso câncer e o colapso de qualquer tipo de consenso é a metástase dessa doença. A busca de um sério equilíbrio dessas regras é que fundamentará, na verdade, nossa liberdade e nossa segurança.

>> Wake up call; Maroon 5; Fearless

>> The Economist

:: Atualização: o Pedro Dória levantou a pelota sobre a quebra da liberdade de expressão. Vale a olhada.

Wednesday, April 02, 2008

Chalaça


O engraçadíssimo livro de André Diniz e Antonio Eder: Chalaça, amigo do Imperador.



>> Chile Your Waters Run Red Through Soweto; Billy Brag; Help Save the Youth of America: Live and Dubious

>> Chasing the Flame - Sergio Vieira de Mello and the Fight to Save the World; Samantha Power; The Penguin Press