Monday, June 30, 2008

Os Outros: Mia Couto

"Seguindo o voo do fumo, o olhar do médico é suficientemente reprovador para dispensar a habitual reprimenda.
- Não sou eu que fumo, Doutor Sidonho. O cigarro é que me está fumando a mim.
- Nisso estamos de acordo. O senhor não devia tocar mais em cigarro.
- O senhor me desculpe, mas o senhor não entende o fumar.
- Não entendo como?
- Não é o tabaco que a gente consome. A gente fuma é a tristeza."

Mia Couto, escritor moçambicano, em um dos ótimos momentos de seu recente livro: "Venenos de Deus, remédios do Diabo". Diria eu que o senhor Couto é, hoje, um dos maiores escritores na língua portuguesa.

Reparem que mantive a ortografia original, adotada em Moçambique. A propósito, o livro foi lançado simultaneamente em Portugal, Moçambique e aqui no Brasil. Penso que iniciativas como essa revelam o grande filão do mercado lusófono nos tempos porvir.

Graças aos esforços da CPLP, tem sido possível integrar o idioma e, a partir daí, lançar estratégias de mercado conjuntas em todos (ou alguns) países que usam a "flor do lácio" como idioma. A despeito dos gramáticos tupiniquins - que continuam teimando com o uso de tremas, hiféns e que tais -, a integração tem avançado muito, sem perda de identidade para os países da comunidade de língua portuguesa.

Para os que ainda são contra a integração linguística, basta lembrar que o espanhol ganhou espaço mundial justamente após os enormes esforços da Real Academia Espanhola em integralizar o idioma - razão pela qual a Alfaguarra é, atualmente, uma das maiores editoras do planeta. E não foi sem propósito que a mesma Alfaguarra comprou parte da Editora Planeta: exatamente pensando no grande potencial de um mercado luso-parlante integrado em uma só base linguística.

>> Venenos de Deus, Remédios do Diabo; Mia Couto; Companhia das Letras
>> Planeta Sonho; 14 Bis; 14 Bis ao Vivo


Sunday, June 22, 2008

Os Outros: The Hours

"- Tell me a story.

- What about?

- Tell me a story from your day.

- I... I got up...and...I went out...and went to buy flowers...like Mrs. Dalloway in the book, you know.... and it was a beautiful morning...

- Like a...like a morning on a beach?

- Oh, yes.

 

-Like that?

- Yes.

- Like that morning...when you walked out of that old house and you were eighteen...and maybe I was nineteen.

- Yes.

- I was nineteen years old...and I'd never seen anything so beautiful. You, coming out of the glass-door in the early morning still sleepy.

- Isn't it strange?

- The most ordinary morning in anybody's life... I'm afraid I can't make it to the party, Clarissa.

- The party...doesn't matter.

- You've been so good to me, Mrs. Dalloway... I love you. I don't think two people could've been happier than we've been."

Esse, pois, é um dos diálogos ao final do belíssimo "The Hours", com Nicole Kidman em atuação impagável.


>> Turn you inside-out; REM; Green

>> Juventude; J. M. Coetzee; Companhia das Letras

Friday, June 20, 2008

Back 4 More


Mês passado, a marinha norte-americana anunciou que tem planos concretos de re-engajar a 4a Frota. Baseados na Flórida, os navios – que patrulham as Américas Central e do Sul, além do Caribe - devem estar ativos a partir de 1o de julho desse ano. Dada sua imensa importância, penso que o tema merece algumas considerações.


A 4a frota foi criada, em 1943, para ajudar na segurança regional – principalmente no contexto da II Guerra Mundial. À época, o isolamento e a paz regional eram elementos chave para a política internacional norte-americana. Após o fim da Guerra, a cena geopolítica alterou-se drasticamente e não havia mais necessidade de presença tão ostensiva na America Latina. Grosso modo, os interesses dos EUA migraram para a contenção do comunismo e da influência soviética: dado que havia mínima competição pela hegemonia militar no sul, os armamentos foram desviados para outras localidades (o Mar Mediterrâneo, por exemplo).


Atualmente, entretanto, tal tendência parece estar se revertendo. Apesar de a re-implantação da frota não representar um inicial aumento no número de combatentes, haverá, por agora, um crescimento no staff da região. Rumores dão conta, também, de que a base na Flórida irá abrigar um Porta-Aviões nuclear. Portanto, leia-se: em um primeiro momento haverá crescimento da atividade de inteligência relativa à região.


Apesar de os EUA manterem uma constante presença naval no Sul, tal movimento aparenta ser um relevante indicador da natureza bélica estadunidense. Sobretudo, o ressurgimento da frota parece indicar a maneira pela qual o país pretende interagir com a região no futuro próximo.


Decerto, pouca coisa alterou-se no teatro geopolítico da área de responsabilidade da frota: os EUA ainda detém completa hegemonia naval na região - e no mundo. Desde o final da Guerra Fria, entretanto, um crescente número de países vem expandindo sua influência naval.


Nesse caso específico, o Brasil tem envidado esforços consideráveis no sentido de expandir seu poder marítimo regional – nosso projeto de submarino nuclear é bom exemplo do que falo. Parece-me que, com uma renovada presença na região, os Estados Unidos desejam engajar o Brasil em favor da manutenção da tradicional cooperação bi-lateral logo no “início do jogo”. Assim, a volta da 4a frota pode ser percebida como o desejo de manter a aliança com o Brasil, lidar com a crescente atividade militar na região e manter a segurança marítima em um contexto de desenvolvimento do hemisfério oriental.


Penso que outra mudança importante a influenciar a iniciativa estadunidense é o desenvolvimento do comércio internacional, especialmente no quesito energético. As recentes descobertas petrolíferas em águas brasileiras sugerem expressivo crescimento do peso geopolítico do Brasil e da região Latina. Com o aumento do trânsito regional e global esperado para os anos futuros, os EUA podem estar preparando um suave desembarque geoestratégico, conforme a importância da região seja adensada.


O renovado foco de Washington parece representar uma adaptação às rápidas mudanças da cena geopolítica mundial. Nesse cenário, as Cassandras poderiam dizer que a política dos EUA remete ao período pré 2a Guerra Mundial. Grosseiramente, algo como: “vamos preservar os nossos porque o futuro, nunca se sabe...”. Entretanto, como diria Chesterton: se há algo que sabemos da história, é que essa não nos ensina nada. O futuro dirá o que a mudança representa.


>> Xamego; Luiz Gonzaga e Fagner; Luiz Gonzaga

>> Juventude; J. M. Coetzee; Companhia das Letras

Monday, June 16, 2008

Os Outros: Adolfo García Ortega

“Auschwitz está demasiado cerca.

Hurbinek, por ejemplo, de haber sobrevivido tendría hoy cincuenta y nueve años. No sería muy mayor, a decir verdad, y tal vez gozara de buena memoria, de una torturante buena memoria que le traería esas terribles pesadillas, frecuentes en quienes han pasado por los campos nazis, en las que una y otra vez sólo les devora el hambre, el hambre y el hambre. Sus nietos, seguramente, serían pequeños aún, a lo sumo adolescentes que lo respetarían. Tendría un buen trabajo, adecuado a sus características físicas, en Polonia o en Hungría, o quizás en alguna ciudad rusa, y sería pronto para él oír hablar de la jubilación. No, Auschwitz todavía no está demasiado cerca. No es tan irreal como lo pueden ser en los libros de texto Trafalgar, la Revolución francesa o Waterloo. Hay supervivientes. Aunque Hurbinek no sea uno de ellos.”

Esse é o primeiro parágrafo de "El Comprador de Aniversarios", livro que ora leio. Escrito por Adolfo García Ortega, a obra simula a vida de um garoto judeu, de nome Hurbinek, que morreu em Auschwitz com três anos. 

Mencionado em "A Trégua", de Primo Levi, como alguém de quem não se sabe nada em absoluto, o pequeno Hurbinek tem sua vida fantasiada nesse interessante livro do Sr. Ortega. Fica, portanto, a recomendação.


>> Death and all his friends; Coldplay; Viva La Vida (cd excelente)

>> El Comprador de Aniversarios; Adolfo García Ortega; Booklet

Friday, June 13, 2008

Gonzo Kitchen

Receita inusitada de pizza de aspargus com, lógico, aspargus e laranja. O segredo é torrar a massa, no forno, até que ela fique quase pronta. Daí, adicione os ingredientes e deixe tostar por cerca de dois minutos. Dessa forma, o queijo de cabra não irá secar.

"Asparagus, Goat Cheese and Orange Pizza
makes 2 pizzas

1 lb. asparagus, washed, trimmed into 2-inch pieces
6 ounces goat cheese
Milk
1 tablespoon orange zest
1/4 cup hazelnuts, toasted and chopped
1 batch of Homemade Thin Crust Pizza (or 1 package of prepared dough)
olive oil
walnut oil (optional)
salt
Trader Joe's Orange Muscat Champagne vinegar, for drizzling


Pre-heat oven to 500. Bake dough alone, removing before the final 2-3 minutes of baking.

Meanwhile, heat a grill pan over medium-high heat. Toss asparagus with a little olive oil and grill until slightly tender, about 5 minutes. Remove from heat and set aside.

Place goat cheese in a small bowl and add a splash of milk. Mix until combined, adding a little more milk as necessary – just enough to make it spreadable. Add orange zest and a dash of salt.

Spread goat cheese mixture onto par-baked crusts and top with asparagus and hazelnuts. Brush crust with walnut oil, if desired. Bake for another 2-3 minutes. Drizzle with Orange Muscat Vinegar before serving."

>> Death and all his friends; Coldplay; Viva la vida
>> Direito Constitucional; Pedro Lenza; Editora Saraiva

Tuesday, June 10, 2008

Yes!!

>> Ronca Ronca; Ao vivo; Oi FM

>> Juventude; J. M. Coetzee; Companhia das Letras

Monday, June 02, 2008

Página 201

"Datada de Philadelphia, de 29 de julho, apparecia uma carta de Lardner Gibbon, explorador do Madeira, ao Sr. Don Carlos Bridoux, commerciante de Cochabamba na Bolívia, concessionário de vastas terras na base dos Andes bolivianos.
A carta vinha intitulada "Andes and Amazon Basin".
Desde o começo, prevenia Gibbon ao commerciante, curioso de conhecer as possibilidades de tráfico pelo Madeira que: "I hope my answer will prove satisfactory as a rational result of my observations, if not the most agreable to you as a merchant".
A carta é objectiva. Descrevia as riquezas da região andina e da amazonica junto as deficiências e as difficuldades.
A these do explorador oficial era que, em princípio, a melhor sahida commercial da Bolivia não era o Pacifico, mas o Atlantico, pelo Amazonas.
No dia em que os productos bolivianos sahissem por essa porta fluvial, o paiz começaria a contar no concerto das nações...."

A página 201 do livro "A Liberdade de Navegação do Amazonas", de Fernando Saboia de Medeiros. Editado em 1938, o texto evidencia que, desde o século XIX, a Amazônia era um sério problema.

>> Foi o mordomo; Cinema mudo; Paralamas do Sucesso

>> Meu nome é vermelho; Orhan Pamuk; Companhia das Letras  

Sunday, June 01, 2008

John Adams


Recentemente, assisti uma minissérie primorosa da HBO: John Adams. Na verdade, foi por acaso que descobri a produção. Porém, após os dois primeiros episódios, minha atenção estava totalmente tomada.

Apesar de o título centrar-se na vida do segundo Presidente dos EUA, a força do filme surge da própria narrativa da formação dos Estados Unidos. Foi impressionante ver George Washington, Thomas Jefferson, Alexander Hamilton e Benjamin Franklin praticamente redivivos na produção primorosa.

O mais interessante foi que o drama da improvável independência americana mostrou-se a partir da ótica de homens comuns, com suas individualidades e desafios familiares. São impagáveis os trechos nos quais “simplórios” colonos americanos vão às decadentes cortes européias: recebidos com desdém, esses mesmos homens fundaram o maior ideal de democracia da idade moderna. Outro ponto alto é a quietude demonstrada pelo ator que interpreta Thomas Jefferson, mais preocupado com as palavras no papel do que com as faladas ao público.

Dado o atual estado das coisas, deveria ser obrigatório gastar algum tempo para assistir a série. É refrescante ver que pessoas, mesmo imperfeitas, verdadeiramente preocuparam-se com o futuro da liberdade. 

>> Think I'm in love; Beck; The information

>> Meu Nome é Vermelho; Orhan Pamuk; Companhia das Letras

:: A foto acima é propriedade da HBO

Saturday, May 10, 2008

H2O


A The Economist dessa semana traz reportagem de duas páginas sobre o questão da água e sobre conflitos pretensamente iminentes acerca do domínio dos rios. A atualidade e o interesse do tema valem uma boa discussão.

Ao contrário do que pensa o senso comum, a idéia de exércitos marchando em batalhas pela água não é tão crível como se acredita. De acordo com a revista, há forte evidência do contrário: há mais cooperação do que conflito nas quase 270 bacias hidrográficas trans-fronteiriças espalhadas pelo mundo. O numero impressiona quando se imagina que tais bacias cobrem quase metade da superfície seca do planeta.

Exceto por algumas regiões tensas (o Tigre e o Eufrates entre Turquia, Síria e Iraque, por exemplo), a revista apresenta inúmeros casos onde o partilhar da água é pacífico. A África é emblemática nesse quesito: quanto maior o número de países por onde um rio passa, maior é a cooperação regional no continente.

Aqui no Brasil a situação não é muito diversa. Temos uma legislação bastante avançada no assunto das bacias hidrográficas trans-fronteiriças. Por compreender grande porção territorial em situação de fronteira com outros países, especialmente na região amazônica, o Brasil consignou essa preocupação no Tratado de Cooperação Amazônico , assinado em 1978 por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Em seu artigo V, o tratado estabelece: “tendo em vista a importância e multiplicidade de funções que os rios amazônicos desempenham no processo de desenvolvimento econômico e social da região, as partes contratantes procurarão envidar esforços com vistas à utilização racional dos recursos hídricos”.

Alem do mais, conforme a lei brasileira, os Comitês de Bacia Hidrográfica são compostos por representantes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios cujos territórios se situem em suas áreas de atuação, dos usuários das respectivas águas e das entidades civis de recursos hídricos com comprovada atuação na bacia. A lei avança ainda mais, afirmando que, nas situações onde haja bacias de rios fronteiriços e trans-fronteiriços de gestão compartilhada, a representação da União deverá incluir um representante do Ministério das Relações Exteriores. Portanto, o interesse pátrio ocorre em níveis elevados no que tange à administração pública. De qualquer forma, não poderia ser diferente, dada a extrema importância do tema.

Sobre a questão das águas, gosto sempre de lembrar a metáfora criada pelo mestre Alberto da Costa e Silva. Ao denominar o oceano Atlântico como um rio entre Brasil e África, o historiador determinou que a imensidão de água entre os dois “continentes” mais os une do que os separa, exatamente como descobriu a revista inglesa. 

>> Iris; Miles Davis; E.S.P.

>> Dossiê Drummond; Geneton M. Neto; Globo

Friday, May 09, 2008

Concentração

Para os que não sabem, o termo “campo de concentração” é um invento espanhol. Advém dos campos de “reconcentração” do militar cubano Valeriano Weyler, que os habilitou na ilha durante a sublevação independentista de Martí, em 1895. A idéia era internar a população civil a fim de que essa não se sublevasse. O intento, porém, foi catastrófico: a fome e as doenças mataram milhares de pessoas, a maioria mulheres e crianças.

Tempos depois, os britânicos copiaram o invento: em 1899 o exército da Rainha utilizou-se da técnica contra os Boers, na África do Sul. O resto, foram o século XX e a história. Sempre ela.

>> Dossiê Drummond; Geneton M. Neto; Globo

>> Fix You; Coldplay; X&Y

Saturday, May 03, 2008

Página 201

"E se Carlos Drummond de Andrade abrisse, em companhia de um amigo de juventude, o escritor Cyro dos Anjos, uma agência especializada em fornecer aos interessados todo tipo de texto? A idéia não foi adiante. Mas mereceu um registro no diário pessoal de Drummond, no dia 27 de março de 1960: "Meu compadre Cyro dos Anjos anuncia-me sua próxima partida para Brasília. Devemos aposentar-nos no fim do ano e eu lhe falo de um possível 'rumo novo' para depois. Temos tanta experiência acumulada em gerir interesses de outrem, por que não aplicá-la em proveito de nós mesmos? Qualquer coisa assim como uma pequena agência de publicidade intelectual, que fornecesse a interessados o de que eles necessitassem: discursos, artigos, contos, poemas, cartas... Redigir é o nosso forte, e ganhar dinheiro, o nosso lado incompetente".

Essa, pois, é a página 201 do livro mais próximo deste que vos tecla. No caso, "Dossiê Drummond", de Geneton Moraes Neto, editado pela Editora Globo.

>> Hairshirt; R.E.M.; Green

>> O Anjo Pornográfico; Ruy Castro; Cia das Letras

Monday, April 21, 2008

Sobre Jatobás, Nardonis e a Mídia Enlouquecida

"Hoje eu sinto muita dificuldade para fazer reportagem policial. Sinto-me usado, quando o papel do repórter teria de ser outro; ele teria que fiscalizar a polícia e ajudar a sociedade. Hoje você acaba sendo uma espécie da ponta-de-lança da polícia. Se a polícia apresenta uma pessoa como sendo um “grande bandido”, você acaba embarcando e divulgando essa versão, e muitas vezes prejudica a vida desse suposto bandido ...".

Valmir Salaro, 1996.


Os desdobramentos do caso da menina Isabella Nardoni transformaram seu assassinato em um show de horrores. Associado a isso - e por meio das poderosas ferramentas da mídia -, todo o país converteu-se em um imenso romance policial de segunda.


A violência contra a pobre garota - o real elemento a ser debatido - vem sendo gradativamente esquecida. A morte da menina, propriamente dita, já não horroriza ou comove: esganada e atirada do sexto andar, Isabella tornou-se coadjuvante. A partir do enfoque da mídia, a vitima importa menos do que seus assassinos.


Uma das funções essenciais da imprensa é mostrar a verdade sobre o que ocorreu. Porém, nesse assassinato, não se quer a verdade, prefere-se acusar, julgar e terminar o assunto – pronto, qual é a manchete de amanhã?


(Trecho editado)


A imprensa pode colaborar na descoberta da verdade e informar à população, mas não pode arvorar-se o direto de julgar. A verdade material, só pode ser apurada por meio da justiça. Fazer justiça é a única maneira de encerrar horrores como os que ocorreram com Isabella (e pelos quais pouca gente está realmente se importando). Ainda assim - e esse é um debate clássico na teoria do direito -, mesmo a justiça tem dificuldades para chegar à verdade material, aos fatos como eles realmente aconteceram. Dados os imensos questionamentos e dúvidas presentes no caso, é sensato pensar que teremos de nos contentar com algum tipo de verdade formal, aquela que representa os fatos junto ao processo judiciário, limitada aos autos.


De forma lamentável, ao contrário do que ocorreu há pouco mais de um ano, quando o menino João Hélio foi despedaçado pelas ruas do Rio, Isabella passou a ser mero pretexto para despertar o espírito detetivesco, tanto dos mediadores como dos mediados.


>> Rádio Eldorado; Ao Vivo

>> A Raiz das Coisas - Rui Barbosa e o Brasil no Mundo; Carlos H. Cardim; Civilização Brasileira

Wednesday, April 09, 2008

Gonzo Kitchen

Stuff
- Filé, grande;
- Sal grosso e pimenta;
- Grelha, muito quente;
- Frigideira, também muito quente (de preferência, velha e sem cabo).

Modus operandi
- Coloque a frigideira no forno quente até avermelhar o metal;
- Tire a frigideira do forno e ponha sobre o bico do gás, aceso;
- Leve o filé à frigideira. Após tostar, vire o lado da carne;
- Para acertar o tempero, junte o sal grosso e a pimenta;
- Remova da frigideira e finalize na grelha.
 Steak gonzo, pois é. Recomenda-se o uso de grossas luvas culinárias.

>> Mensagem de Amor; Paralamas; O Passo do Lui

>> A Raiz das Coisas; Carlos Henrique Cardim; Civilização Brasileira

Tuesday, April 08, 2008

Os Outros: Edward Gibbon

"It has always been my practice to cast a long paragraph in a single mould, to try it by my ear, to deposit it in my memory, but to suspend the action of the pen till I had given the last polish to my work."

Segundo dizem, foi o mestre Edward Gibbon quem ensinou Churchill a escrever.

>> Supernatural Superserious; R.E.M.; Accelerate

>> The Economist

Friday, April 04, 2008

Segurança Nacional, Direitos Civis e Dossiês

Nosso noticiário político tem colocado em pauta um dilema bastante interessante para a democracia. Principalmente após a liberação do dossiê “Dilma” e desde o episódio da Caixa Econômica (envolvendo o caseiro Francenildo e o Ministro Palloci), passou-se a questionar até que ponto a segurança nacional pode intervir nos direitos civis. Em uma democracia recém-emancipada, como a nossa, tal debate nunca é irrelevante.

Em ambos os casos, houve sempre um vazamento de dados ou elementos que deveriam pertencer unicamente ao governo. Levando a uma pergunta óbvia: como a imprensa descobriu informações que dizem respeito exclusivamente ao governo? De certa forma, é correto assumir que os jornais não vivem realizando operações secretas contra o governo. Portanto, algum indivíduo entregou as histórias à imprensa. Ou seja, alguém com um elevado certificado de segurança vazou segredos da União.

Atualmente, acostumados com o conceito de invasão de privacidade (revistas, paparazzis, internet), tornamo-nos tão anestesiados com tais vazamentos que praticamente não discutimos as reais implicações do que tem acontecido: o governo vem liberando - a critério próprio - informação que deveria ser secreta. Quaisquer que sejam os responsáveis por tais “leaks”, o que presenciamos é uma extraordinária ruptura por parte daqueles que deveriam justamente proteger esse tipo de material.

No caso mais recente (o dossiê Dilma-FHC), a razão principal para os ataques foi a pretensa candidatura da Ministra Roussef ao Planalto, em 2010. O soerguimento de Dilma trouxe intensas críticas tanto da oposição quanto de parte da própria base do governo, que acham a escolha da Ministra inapropriada. O vazamento das despesas do Presidente Fernando Henrique foi, obviamente, uma maneira de tentar abater essa indicação - o que deve funcionar. Porém, o que importa aqui não é o opróbrio de Dilma, mas o fato de que o governo perdeu o controle de uma parte de seu staff. No cerne do debate, está o argumento de que o vazamento não é tão interessante por si só, mas que o mais importante é ter o governo contribuído para a reunião de informações tão relevantes sem sequer ter-se perguntado se isso não representava um sério gravame à liberdade.

No âmbito da ameaça à liberdade, é impossível imaginar que devassas individuais como as que têm acontecido não ponham nossa democracia em perigo. Decerto, dada a própria ambigüidade do conceito de liberdade, um bom debatedor poderia argumentar para ambos os lados (segredos de estado ou liberdades civis). A despeito do que diz a lei, porém, o dicionário Aurélio registra liberdade como a “faculdade de praticar tudo quanto não é proibido por lei”.  As recentes ações violam, portanto, tal conceito. O maior problema, nesses casos, é que se perde a previsibilidade sobre o que o governo fará com as informações que coleta.

Fique claro, porém, que discuto aqui não uma doença da democracia. O vazamento de informações sigilosas é um problema de governo e não de Estado. Governos (o atual ou qualquer outro) não são particularmente confiáveis na maneira como usam leis e informações. Ressalve-se, também, que crimes contra o patrimônio público (a farra com os cartões corporativos, por exemplo) precisam ser duramente perseguidos. O problema é que tais ilícitos devem ser combatidos dentro do rigoroso sistema de devido processo legal. Nossa atual Constituição, tentando sanar equívocos do passado, baseou-se na premissa de que o governo pode ser tão perigoso quanto criminosos comuns. Portanto, foram criados mecanismos que circunscrevem os poderes do Estado para que ações extremadas não ocorram. Grosso modo, tais instrumentos têm funcionado muito bem, garantindo a saudável estabilidade do país. Os arroubos atuais, contudo, são arrepiantes. 

A famosa afirmação dos inconfidentes mineiros, “liberdade ainda que tardia”, é uma premissa fundamental de nossa nação. Todavia, a complexidade do mundo moderno recomenda que a permuta entre liberdade e segurança seja debatida: vazamento de informações confidenciais é o sintoma de um perigoso câncer e o colapso de qualquer tipo de consenso é a metástase dessa doença. A busca de um sério equilíbrio dessas regras é que fundamentará, na verdade, nossa liberdade e nossa segurança.

>> Wake up call; Maroon 5; Fearless

>> The Economist

:: Atualização: o Pedro Dória levantou a pelota sobre a quebra da liberdade de expressão. Vale a olhada.

Wednesday, April 02, 2008

Chalaça


O engraçadíssimo livro de André Diniz e Antonio Eder: Chalaça, amigo do Imperador.



>> Chile Your Waters Run Red Through Soweto; Billy Brag; Help Save the Youth of America: Live and Dubious

>> Chasing the Flame - Sergio Vieira de Mello and the Fight to Save the World; Samantha Power; The Penguin Press

Monday, March 31, 2008

Os Outros: J. M. Coetzee

"Will this man, in the course of his travels, ever come to Bristol? He yearns to meet the fellow in the flesh, shake his hand, take a stroll with him along the quayside and hearken as he tells of his visit to the dark north of the island, or of his adventures in the writing business. But he fears there will be no meeting, not in this life. If he must settle on a likeness for the pair of them, his man and he, he would write that they are like two ships sailing in contrary directions, one west, the other east. Or better, that they are deckhands toiling in the rigging, the one on a ship sailing west, the other on a ship sailing east. Their ships pass close, close enough to hail. But the seas are rough, the weather is stormy: their eyes lashed by the spray, their hands burned by the cordage, they pass each other by, too busy even to wave."

O estranho discurso do prêmio Nobel de 2003, J. M. Coetzee.


>> Living Darfur; Mattafix; Living Darfur

>> Chasing the Flame - Sergio Vieira de Mello and the fight to save the world; Samantha Power; The Penguin Press

Friday, March 28, 2008

Stand By Me

Em reunião no dia 26 último, os Presidentes Lula e Hugo Chávez conversaram sobre a criação de um tipo de “Conselho de Segurança” sul-americano. De acordo com a imprensa, a proposta foi do nosso Ministro da Defesa, Nelson Jobim, e busca o entendimento entre os países sul-americanos para que seja possível alcançar uma mesma palavra sobre defesa e segurança na parte sul do continente.

Tais idéias sobre a “unificação” das forças continentais são recorrentes na história latino-americana e, exceto por uma ou outra iniciativa isolada - por exemplo, a Segunda Guerra Mundial -, fracassaram quase que em sua unanimidade. De certa forma, a região é complexa demais para abarcar um organismo centralizador dos exércitos. 

Tradicionalmente, o estado hegemônico em uma região mantém claros domínios econômicos, militares e políticos sobre o espaço que influencia. No caso do Brasil, o país tentar preencher esse papel desde a era colonial. No entanto, apesar de sua atual superioridade em muitas dessas áreas, a nação brasileira tem tido dificuldade para consolidar essa hegemonia. Assim, o maior problema da proposta de uma segurança hemisférica moldada sobre um conselho regional é saber se o Brasil tem poder suficiente nos domínios mencionados a fim de convencer os demais países a se juntarem ao projeto.

Como já afirmei por aqui, a economia brasileira vive um período próspero, com crescimento relativamente sustentado. Tanto a demanda doméstica quanto as exportações estão crescendo substancialmente. Além disso, apesar de empresas como a Petrobrás representarem uma poderosa força econômica, a economia nacional não é mais centrada apenas em commodities - como é o caso da Venezuela, por exemplo. O orçamento da União, por sua vez, também não é financiado somente no petróleo, como ocorre no México. Dessa forma, a recente desenvoltura nacional e o controle fiscal da economia deram ao Brasil uma ampla área de manobra.

O Brasil tem, igualmente, amplas reservas naturais que lhe garantem certa vantagem. Energias hidroelétrica, nuclear e de gás estão sendo desenvolvidas em favor da demanda nacional e da redução da dependência internacional. Adicionalmente, o país tem-se utilizado da Petrobras para adquirir influência sobre alguns vizinhos (a mesma tática foi usada com a energia hidroelétrica junto ao Paraguai). Adicione-se a isso a imensa potencialidade do etanol e tem-se um país muito bem preparado para o futuro.

Na área militar, o Brasil tem - apesar das deficiências - o melhor e mais bem posicionado exército da América do Sul. Apesar das recentes compras de armamento por parte da Venezuela e do apoio norte-americano à Colômbia, nenhum país sulino chega perto do poder militar brasileiro. No entanto, a maior vantagem militar brasileira continua sendo a geografia. Conforme analisei no texto citado acima, a densa floresta amazônica e a especial localização das cidades brasileira dão ampla proteção ao país.

No entanto, a proposta do Conselho de Segurança regional tem obstáculos a superar. Existem poderosos sentimentos nacionalistas entre os países latino-americanos. Assim, não tem sido fácil a tarefa de convencer os líderes de que a cooperação é necessária ou mesmo possível. O próprio Presidente Chávez já começou a formar uma pretensa aliança de esquerda que pode atrapalhar o projeto de união regional. A despeito de sua grande amizade com o Presidente Lula, Chávez pode não ter interesse de submeter-se a eventuais pressões políticas no contexto de um conselho nos moldes propostos.

Mesmo se desconsiderados todos os obstáculos, o Brasil ainda precisa de uma plataforma política que agrade ao continente e permita a ação brasileira como líder regional. Nas palavras do professor Joseph Nye, é preciso criar um “soft power” tupiniquim: uma proposta em defesa do multiculturalismo latino-americano, por exemplo. Outra opção é a formação de um conjunto de regras que autorizem o futuro conselho a agir em favor de missões de paz, contra o crime organizado ou na condução de exercícios militares coletivos. De modo genérico, poder-se-ia ampliar a cláusula democrática do Mercosul a todo o continente. Atualmente, ao contrário do que afirmou Maquiavel, o mais importante para um príncipe é ser amado e não temido. Sendo a maior nação sul-americana, o Brasil pode promover a aliança latino-americana como um dever, um destino comum que provavelmente ressoaria muito bem entre todos.


>> Blues by five; George Otsuka Trio; Shibuya jazz classics

>> Chasing the flame - Sergio Vieira de Mello and the fight to save the world; Samantha Power; The Penguin Press

Wednesday, March 26, 2008

Na Praia: Viatura

Carbras*Mar, Elite 520. Equipada, inclusive, com uma pitoresca senzala flutuante.


>> Jazzmanmp3; Blog; Aqui

>> Red Cat; Peter Spiegelman; Random House

Tuesday, March 25, 2008

Os Outros: Sir Charles Darwin

"It is interesting to contemplate an entangled bank, clothed with many plants of many kinds, with birds singing on the bushes, with various insects flitting about, and with worms crawling through the damp earth, and to reflect that these elaborately constructed forms, so different from each other, and dependent on each other in so complex a manner, have all been produced by laws acting around us. These laws, taken in the largest sense, being Growth with Reproduction; inheritance which is almost implied by reproduction; Variability from the indirect and direct action of the external conditions of life, and from use and disuse; a Ratio of Increase so high as to lead to a Struggle for Life, and as a consequence to Natural Selection, entailing Divergence of Character and the Extinction of less-improved forms. Thus, from the war of nature, from famine and death, the most exalted object which we are capable of conceiving, namely, the production of the higher animals, directly follows. There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved."

A conclusão de "On the origin of species", leitura que deveria ser obrigatória nos dias que correm.

>> Over The Rainbow/What A Wonderful World; Israel Kamakawiwo'ole; Facing Future

>> Red Cat; Peter Spiegelman; Random House