Tuesday, July 29, 2008

Curtas

:: Berliner
O clichê é óbvio, mas irresistível: a foto de Obama em Berlim ficou uma finura.

:: No Nukes
Há de ser uma piada a notícia veiculada pelo NYT: Henry Kissinger defendendo a diminução das armas nucleares? Prefiro acreditar em ruído jornalístico do que na teoria de que "They are trying to shock sensibilities". Na verdade, parece-me muito mais um modo de adaptar a política da contenção para o nosso tempo. Nas palavras do jornal:

"In two opinion articles in The Wall Street Journal, they described a frightening new world of ever-expanding nuclear appetites, in which traditional deterrence no longer works. They argued that the only way for the United States to rally the cooperation it needs to confront such dangers is with a clear commitment to the goal of a world without nuclear weapons."

De qualquer forma, é estranho ver o mestre diplomata contrariar quase tudo que afirmou ao longo da vida. Muito estranho.

>> Faz de Conta; Engenheiros do Hawaii; Novos Horizontes - Acústico
>> Rio das Flores; Miguel Sousa Tavares; Companhia das Letras

Friday, July 25, 2008

Cry Of The Forgotten Land

Quando as pessoas perguntam-me sobre meus pensamentos acerca do Rio de Janeiro, sinto sempre um certo desconforto. Carioca desterrado, sei como supostamente devo responder: com tristeza, desapontamento e, talvez, raiva. Invariavelmente, entretanto, tento desviar do assunto, ou falar de forma mais neutra possível.


Isso porque, no fundo, a violência na cidade nunca me atingiu diretamente – ou a meus amigos. Meus contemporâneos e eu sempre tivemos relativa indiferença frente aos tiroteios; os horrores dos crimes e suas implicações demoníacas soavam distantes, estrangeiros até. Na verdade, a violência era, simplesmente, um flash que marcava a descontinuidade característica da degradação na antiga capital federal.


Em 2004, quando vim morar em Brasília, anos antes das atuais bestialidades, o Rio de Janeiro era, ao menos para mim, um lugar onde ainda se podia viver. Apesar da violência já latente, creio que as pessoas de minha geração viam os bandidos – e toda a noção de patologia social – como alienígenas. A ardente crença no distanciamento da brutalidade era vista, em nossa entediada consciência “burguesa”, como eco de um acreditar romântico na violência. Para nós, os brutos e assassinos jamais deixariam os morros para se aventurar na maravilhosa Zona Sul. Tais memórias faziam parte de meu imaginário até recentemente.


Semana passada estive no Rio de Janeiro para visitar meus pais e, para dizer o mínimo, fiquei desesperançado. As principais referências ao passado idílico outrora mantidas em minha cabeça simplesmente desapareceram. Hoje, a violência e suas crises estão de tal forma instaladas na cidade que, ouso dizer, transformaram-se no equivalente cultural de música de elevador – tamanha a indiferença com a qual a população trata o problema.


De fato, o carioca é incomum em sua habilidade de atar choques e distúrbios, gradualmente fazendo deles uma coisa neutra. Ao contrario do senso comum, entretanto, o imaginário “bandoleiro” na cultura 021 não é muito diferente dos traficantes com fuzis AR-15 que esbarram em você nos bailes funks ao redor da cidade: as armas e as músicas presentes nesses locais são uma declaração moral, não estética como querem fazer crer certos sociólogos.


O problema é de tal forma tamanho que alguns organismos internacionais estão elevando os protocolos de segurança adotados para a Cidade Maravilhosa. Por exemplo, a fim de orientar as viagens de seus funcionários, as Nações Unidas têm uma escala de níveis de segurança começando na "Fase 1" (Precaução) e terminando na "Fase 5" (Evacuação). Desde fins de 2006 o Rio de Janeiro foi classificado como local "Fase 1". Dessa forma, funcionários em viagem para lá, mesmo que a passeio, precisam preencher um formulário avisando o Departamento de Segurança da ONU quando ocorrerá o “passeio”, em que vôo e horários, qual o local de hospedagem, quais os acompanhantes, e qual a data de retorno. Tudo isso no intuito de possibilitar a evacuação do funcionário com rapidez e segurança caso seja agravada a situação.


Nos documentos, há uma seção "Travel Advisories" em que um texto realista alerta acerca dos riscos que se assume ao ir ao Rio de Janeiro. Vale citar um trecho:

“As forças de segurança conduzem freqüentes operações armadas contra facções do tráfico de drogas que estão em controle de diversas favelas espalhadas pela cidade. Balas perdidas, rajadas de balas e o indiscriminado uso de munição de alta velocidade e armamento pesado podem transformar qualquer favela num cenário perigoso e volátil, especialmente no caso de intervenção da polícia ou conflitos entre diferentes facções de traficantes. Visitantes são mais vulneráveis a tais incidentes devido ao seu desconhecimento do local e falta de experiência. Portanto, todos os viajantes são aconselhados a evitar a proximidade das favelas. Adicionalmente, tem havido um aumento de assaltos à mão armada nas vias de acesso do Aeroporto Internacional à Zona Sul, onde a maioria dos visitantes internacionais ficam. Evite passar à noite na Linha Vermelha ou Linha Amarela, que são vias expressas ligando o Aeroporto Internacional à Zona Sul, o centro da cidade e subúrbios. Se você desembarcar no Aeroporto Internacional durante a noite, considere passar a noite no Hotel do Aeroporto. Enquanto no Rio de Janeiro, dê preferência a rádio-táxis registrados já que eles são considerados os mais seguros, ou peça orientações ao concièrge do seu hotel. Devido a disputas em curso com os controladores de tráfego aéreo, vôos podem se atrasar, serem cancelados e/ou desviados de seus destinos iniciais. Assim, viajantes chegando ou fazendo conexões em vôos no Rio de Janeiro são aconselhados a requerer um security clearance mesmo que não haja expectativa de deixarem o Aeroporto. (...)”

Como se percebe, a situação é grotesca. E pode piorar ainda mais: recente reportagem do jornal “O Globo” afirma que traficantes da Rocinha estão formando associações com o MST, especialmente com um de seus líderes, José Rainha. Decerto, a cidade não é para amadores e o assunto parece ainda estar muito longe de ser resolvido.

 

>>Little by Little; Oasis; The Best Bands Ever

>> Travessuras da Menina Má; Mário Vargas Llosa; Alfagarra

p.s.: dado que o livro citado acima é editado pela Alfagarra, lembro post anterior para dizer que o jornal El País está sendo impresso no Brasil. Agora, com preços realísticos, é possível ler um dos melhores jornais do planeta também em terras tupiniquins. Não consigo imaginar iniciativa mais poderosa para um "esforço pela integração cultural".

Saturday, July 05, 2008

Sunny Days Rules #1

Jamais confie em alguém que use pochete. Agravante: quanto maior o tamanho da antipática bolsinha, menos confiável é o bípede que a utiliza.


>> Disco Lies; Moby; Last Night
>> O Santo Sujo - A Vida de Jaime Ovalle; H. Werneck; Cosac Naify

Friday, July 04, 2008

FLIP



"Bebo pra caralho e escrevo socialmente", diz o ótimo Xico Sá no video acima. Continua ele: "escrever é minha forma de humilhar Gisele Bundchen". Apesar de utilizar-se do "pra", contracto, o sujeito merece aplausos. 

Xico Sá e Humberto Werneck, em encontro na FLIP, conversam ao longo de oito minutos sobre o excelente livro "O Santo Sujo - A Vida de Jayme Ovalle", escrito por Werneck e ora lido por mim. Obviamente, o livro é mais do que recomendado.

Além da primorosa edição da Cosac Naify, a publicação traz a história de um sujeito até então pouco conhecido nos meios off-literários, mas de extrema importância para nossos autores pós-1922. Como diria Guimarães Rosa: o Brasil tem desses "deslembramentos"

O biografado, grosso modo, é uma figuraça que estimula verves ácidas e fleuma britânica - não que isso pareça uma contradiçao per se. Os prezados entederão o que digo caso aventurem-se pelas páginas do livro.

>> Sonífera Ilha; Paralamas e Titãs; Juntos e ao vivo
>> O Santo Sujo - A vida de Jaime Ovalle; Humberto Werneck; Cosac Naify

Monday, June 30, 2008

Os Outros: Mia Couto

"Seguindo o voo do fumo, o olhar do médico é suficientemente reprovador para dispensar a habitual reprimenda.
- Não sou eu que fumo, Doutor Sidonho. O cigarro é que me está fumando a mim.
- Nisso estamos de acordo. O senhor não devia tocar mais em cigarro.
- O senhor me desculpe, mas o senhor não entende o fumar.
- Não entendo como?
- Não é o tabaco que a gente consome. A gente fuma é a tristeza."

Mia Couto, escritor moçambicano, em um dos ótimos momentos de seu recente livro: "Venenos de Deus, remédios do Diabo". Diria eu que o senhor Couto é, hoje, um dos maiores escritores na língua portuguesa.

Reparem que mantive a ortografia original, adotada em Moçambique. A propósito, o livro foi lançado simultaneamente em Portugal, Moçambique e aqui no Brasil. Penso que iniciativas como essa revelam o grande filão do mercado lusófono nos tempos porvir.

Graças aos esforços da CPLP, tem sido possível integrar o idioma e, a partir daí, lançar estratégias de mercado conjuntas em todos (ou alguns) países que usam a "flor do lácio" como idioma. A despeito dos gramáticos tupiniquins - que continuam teimando com o uso de tremas, hiféns e que tais -, a integração tem avançado muito, sem perda de identidade para os países da comunidade de língua portuguesa.

Para os que ainda são contra a integração linguística, basta lembrar que o espanhol ganhou espaço mundial justamente após os enormes esforços da Real Academia Espanhola em integralizar o idioma - razão pela qual a Alfaguarra é, atualmente, uma das maiores editoras do planeta. E não foi sem propósito que a mesma Alfaguarra comprou parte da Editora Planeta: exatamente pensando no grande potencial de um mercado luso-parlante integrado em uma só base linguística.

>> Venenos de Deus, Remédios do Diabo; Mia Couto; Companhia das Letras
>> Planeta Sonho; 14 Bis; 14 Bis ao Vivo


Sunday, June 22, 2008

Os Outros: The Hours

"- Tell me a story.

- What about?

- Tell me a story from your day.

- I... I got up...and...I went out...and went to buy flowers...like Mrs. Dalloway in the book, you know.... and it was a beautiful morning...

- Like a...like a morning on a beach?

- Oh, yes.

 

-Like that?

- Yes.

- Like that morning...when you walked out of that old house and you were eighteen...and maybe I was nineteen.

- Yes.

- I was nineteen years old...and I'd never seen anything so beautiful. You, coming out of the glass-door in the early morning still sleepy.

- Isn't it strange?

- The most ordinary morning in anybody's life... I'm afraid I can't make it to the party, Clarissa.

- The party...doesn't matter.

- You've been so good to me, Mrs. Dalloway... I love you. I don't think two people could've been happier than we've been."

Esse, pois, é um dos diálogos ao final do belíssimo "The Hours", com Nicole Kidman em atuação impagável.


>> Turn you inside-out; REM; Green

>> Juventude; J. M. Coetzee; Companhia das Letras

Friday, June 20, 2008

Back 4 More


Mês passado, a marinha norte-americana anunciou que tem planos concretos de re-engajar a 4a Frota. Baseados na Flórida, os navios – que patrulham as Américas Central e do Sul, além do Caribe - devem estar ativos a partir de 1o de julho desse ano. Dada sua imensa importância, penso que o tema merece algumas considerações.


A 4a frota foi criada, em 1943, para ajudar na segurança regional – principalmente no contexto da II Guerra Mundial. À época, o isolamento e a paz regional eram elementos chave para a política internacional norte-americana. Após o fim da Guerra, a cena geopolítica alterou-se drasticamente e não havia mais necessidade de presença tão ostensiva na America Latina. Grosso modo, os interesses dos EUA migraram para a contenção do comunismo e da influência soviética: dado que havia mínima competição pela hegemonia militar no sul, os armamentos foram desviados para outras localidades (o Mar Mediterrâneo, por exemplo).


Atualmente, entretanto, tal tendência parece estar se revertendo. Apesar de a re-implantação da frota não representar um inicial aumento no número de combatentes, haverá, por agora, um crescimento no staff da região. Rumores dão conta, também, de que a base na Flórida irá abrigar um Porta-Aviões nuclear. Portanto, leia-se: em um primeiro momento haverá crescimento da atividade de inteligência relativa à região.


Apesar de os EUA manterem uma constante presença naval no Sul, tal movimento aparenta ser um relevante indicador da natureza bélica estadunidense. Sobretudo, o ressurgimento da frota parece indicar a maneira pela qual o país pretende interagir com a região no futuro próximo.


Decerto, pouca coisa alterou-se no teatro geopolítico da área de responsabilidade da frota: os EUA ainda detém completa hegemonia naval na região - e no mundo. Desde o final da Guerra Fria, entretanto, um crescente número de países vem expandindo sua influência naval.


Nesse caso específico, o Brasil tem envidado esforços consideráveis no sentido de expandir seu poder marítimo regional – nosso projeto de submarino nuclear é bom exemplo do que falo. Parece-me que, com uma renovada presença na região, os Estados Unidos desejam engajar o Brasil em favor da manutenção da tradicional cooperação bi-lateral logo no “início do jogo”. Assim, a volta da 4a frota pode ser percebida como o desejo de manter a aliança com o Brasil, lidar com a crescente atividade militar na região e manter a segurança marítima em um contexto de desenvolvimento do hemisfério oriental.


Penso que outra mudança importante a influenciar a iniciativa estadunidense é o desenvolvimento do comércio internacional, especialmente no quesito energético. As recentes descobertas petrolíferas em águas brasileiras sugerem expressivo crescimento do peso geopolítico do Brasil e da região Latina. Com o aumento do trânsito regional e global esperado para os anos futuros, os EUA podem estar preparando um suave desembarque geoestratégico, conforme a importância da região seja adensada.


O renovado foco de Washington parece representar uma adaptação às rápidas mudanças da cena geopolítica mundial. Nesse cenário, as Cassandras poderiam dizer que a política dos EUA remete ao período pré 2a Guerra Mundial. Grosseiramente, algo como: “vamos preservar os nossos porque o futuro, nunca se sabe...”. Entretanto, como diria Chesterton: se há algo que sabemos da história, é que essa não nos ensina nada. O futuro dirá o que a mudança representa.


>> Xamego; Luiz Gonzaga e Fagner; Luiz Gonzaga

>> Juventude; J. M. Coetzee; Companhia das Letras

Monday, June 16, 2008

Os Outros: Adolfo García Ortega

“Auschwitz está demasiado cerca.

Hurbinek, por ejemplo, de haber sobrevivido tendría hoy cincuenta y nueve años. No sería muy mayor, a decir verdad, y tal vez gozara de buena memoria, de una torturante buena memoria que le traería esas terribles pesadillas, frecuentes en quienes han pasado por los campos nazis, en las que una y otra vez sólo les devora el hambre, el hambre y el hambre. Sus nietos, seguramente, serían pequeños aún, a lo sumo adolescentes que lo respetarían. Tendría un buen trabajo, adecuado a sus características físicas, en Polonia o en Hungría, o quizás en alguna ciudad rusa, y sería pronto para él oír hablar de la jubilación. No, Auschwitz todavía no está demasiado cerca. No es tan irreal como lo pueden ser en los libros de texto Trafalgar, la Revolución francesa o Waterloo. Hay supervivientes. Aunque Hurbinek no sea uno de ellos.”

Esse é o primeiro parágrafo de "El Comprador de Aniversarios", livro que ora leio. Escrito por Adolfo García Ortega, a obra simula a vida de um garoto judeu, de nome Hurbinek, que morreu em Auschwitz com três anos. 

Mencionado em "A Trégua", de Primo Levi, como alguém de quem não se sabe nada em absoluto, o pequeno Hurbinek tem sua vida fantasiada nesse interessante livro do Sr. Ortega. Fica, portanto, a recomendação.


>> Death and all his friends; Coldplay; Viva La Vida (cd excelente)

>> El Comprador de Aniversarios; Adolfo García Ortega; Booklet

Friday, June 13, 2008

Gonzo Kitchen

Receita inusitada de pizza de aspargus com, lógico, aspargus e laranja. O segredo é torrar a massa, no forno, até que ela fique quase pronta. Daí, adicione os ingredientes e deixe tostar por cerca de dois minutos. Dessa forma, o queijo de cabra não irá secar.

"Asparagus, Goat Cheese and Orange Pizza
makes 2 pizzas

1 lb. asparagus, washed, trimmed into 2-inch pieces
6 ounces goat cheese
Milk
1 tablespoon orange zest
1/4 cup hazelnuts, toasted and chopped
1 batch of Homemade Thin Crust Pizza (or 1 package of prepared dough)
olive oil
walnut oil (optional)
salt
Trader Joe's Orange Muscat Champagne vinegar, for drizzling


Pre-heat oven to 500. Bake dough alone, removing before the final 2-3 minutes of baking.

Meanwhile, heat a grill pan over medium-high heat. Toss asparagus with a little olive oil and grill until slightly tender, about 5 minutes. Remove from heat and set aside.

Place goat cheese in a small bowl and add a splash of milk. Mix until combined, adding a little more milk as necessary – just enough to make it spreadable. Add orange zest and a dash of salt.

Spread goat cheese mixture onto par-baked crusts and top with asparagus and hazelnuts. Brush crust with walnut oil, if desired. Bake for another 2-3 minutes. Drizzle with Orange Muscat Vinegar before serving."

>> Death and all his friends; Coldplay; Viva la vida
>> Direito Constitucional; Pedro Lenza; Editora Saraiva

Tuesday, June 10, 2008

Yes!!

>> Ronca Ronca; Ao vivo; Oi FM

>> Juventude; J. M. Coetzee; Companhia das Letras

Monday, June 02, 2008

Página 201

"Datada de Philadelphia, de 29 de julho, apparecia uma carta de Lardner Gibbon, explorador do Madeira, ao Sr. Don Carlos Bridoux, commerciante de Cochabamba na Bolívia, concessionário de vastas terras na base dos Andes bolivianos.
A carta vinha intitulada "Andes and Amazon Basin".
Desde o começo, prevenia Gibbon ao commerciante, curioso de conhecer as possibilidades de tráfico pelo Madeira que: "I hope my answer will prove satisfactory as a rational result of my observations, if not the most agreable to you as a merchant".
A carta é objectiva. Descrevia as riquezas da região andina e da amazonica junto as deficiências e as difficuldades.
A these do explorador oficial era que, em princípio, a melhor sahida commercial da Bolivia não era o Pacifico, mas o Atlantico, pelo Amazonas.
No dia em que os productos bolivianos sahissem por essa porta fluvial, o paiz começaria a contar no concerto das nações...."

A página 201 do livro "A Liberdade de Navegação do Amazonas", de Fernando Saboia de Medeiros. Editado em 1938, o texto evidencia que, desde o século XIX, a Amazônia era um sério problema.

>> Foi o mordomo; Cinema mudo; Paralamas do Sucesso

>> Meu nome é vermelho; Orhan Pamuk; Companhia das Letras  

Sunday, June 01, 2008

John Adams


Recentemente, assisti uma minissérie primorosa da HBO: John Adams. Na verdade, foi por acaso que descobri a produção. Porém, após os dois primeiros episódios, minha atenção estava totalmente tomada.

Apesar de o título centrar-se na vida do segundo Presidente dos EUA, a força do filme surge da própria narrativa da formação dos Estados Unidos. Foi impressionante ver George Washington, Thomas Jefferson, Alexander Hamilton e Benjamin Franklin praticamente redivivos na produção primorosa.

O mais interessante foi que o drama da improvável independência americana mostrou-se a partir da ótica de homens comuns, com suas individualidades e desafios familiares. São impagáveis os trechos nos quais “simplórios” colonos americanos vão às decadentes cortes européias: recebidos com desdém, esses mesmos homens fundaram o maior ideal de democracia da idade moderna. Outro ponto alto é a quietude demonstrada pelo ator que interpreta Thomas Jefferson, mais preocupado com as palavras no papel do que com as faladas ao público.

Dado o atual estado das coisas, deveria ser obrigatório gastar algum tempo para assistir a série. É refrescante ver que pessoas, mesmo imperfeitas, verdadeiramente preocuparam-se com o futuro da liberdade. 

>> Think I'm in love; Beck; The information

>> Meu Nome é Vermelho; Orhan Pamuk; Companhia das Letras

:: A foto acima é propriedade da HBO

Saturday, May 10, 2008

H2O


A The Economist dessa semana traz reportagem de duas páginas sobre o questão da água e sobre conflitos pretensamente iminentes acerca do domínio dos rios. A atualidade e o interesse do tema valem uma boa discussão.

Ao contrário do que pensa o senso comum, a idéia de exércitos marchando em batalhas pela água não é tão crível como se acredita. De acordo com a revista, há forte evidência do contrário: há mais cooperação do que conflito nas quase 270 bacias hidrográficas trans-fronteiriças espalhadas pelo mundo. O numero impressiona quando se imagina que tais bacias cobrem quase metade da superfície seca do planeta.

Exceto por algumas regiões tensas (o Tigre e o Eufrates entre Turquia, Síria e Iraque, por exemplo), a revista apresenta inúmeros casos onde o partilhar da água é pacífico. A África é emblemática nesse quesito: quanto maior o número de países por onde um rio passa, maior é a cooperação regional no continente.

Aqui no Brasil a situação não é muito diversa. Temos uma legislação bastante avançada no assunto das bacias hidrográficas trans-fronteiriças. Por compreender grande porção territorial em situação de fronteira com outros países, especialmente na região amazônica, o Brasil consignou essa preocupação no Tratado de Cooperação Amazônico , assinado em 1978 por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Em seu artigo V, o tratado estabelece: “tendo em vista a importância e multiplicidade de funções que os rios amazônicos desempenham no processo de desenvolvimento econômico e social da região, as partes contratantes procurarão envidar esforços com vistas à utilização racional dos recursos hídricos”.

Alem do mais, conforme a lei brasileira, os Comitês de Bacia Hidrográfica são compostos por representantes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios cujos territórios se situem em suas áreas de atuação, dos usuários das respectivas águas e das entidades civis de recursos hídricos com comprovada atuação na bacia. A lei avança ainda mais, afirmando que, nas situações onde haja bacias de rios fronteiriços e trans-fronteiriços de gestão compartilhada, a representação da União deverá incluir um representante do Ministério das Relações Exteriores. Portanto, o interesse pátrio ocorre em níveis elevados no que tange à administração pública. De qualquer forma, não poderia ser diferente, dada a extrema importância do tema.

Sobre a questão das águas, gosto sempre de lembrar a metáfora criada pelo mestre Alberto da Costa e Silva. Ao denominar o oceano Atlântico como um rio entre Brasil e África, o historiador determinou que a imensidão de água entre os dois “continentes” mais os une do que os separa, exatamente como descobriu a revista inglesa. 

>> Iris; Miles Davis; E.S.P.

>> Dossiê Drummond; Geneton M. Neto; Globo

Friday, May 09, 2008

Concentração

Para os que não sabem, o termo “campo de concentração” é um invento espanhol. Advém dos campos de “reconcentração” do militar cubano Valeriano Weyler, que os habilitou na ilha durante a sublevação independentista de Martí, em 1895. A idéia era internar a população civil a fim de que essa não se sublevasse. O intento, porém, foi catastrófico: a fome e as doenças mataram milhares de pessoas, a maioria mulheres e crianças.

Tempos depois, os britânicos copiaram o invento: em 1899 o exército da Rainha utilizou-se da técnica contra os Boers, na África do Sul. O resto, foram o século XX e a história. Sempre ela.

>> Dossiê Drummond; Geneton M. Neto; Globo

>> Fix You; Coldplay; X&Y

Saturday, May 03, 2008

Página 201

"E se Carlos Drummond de Andrade abrisse, em companhia de um amigo de juventude, o escritor Cyro dos Anjos, uma agência especializada em fornecer aos interessados todo tipo de texto? A idéia não foi adiante. Mas mereceu um registro no diário pessoal de Drummond, no dia 27 de março de 1960: "Meu compadre Cyro dos Anjos anuncia-me sua próxima partida para Brasília. Devemos aposentar-nos no fim do ano e eu lhe falo de um possível 'rumo novo' para depois. Temos tanta experiência acumulada em gerir interesses de outrem, por que não aplicá-la em proveito de nós mesmos? Qualquer coisa assim como uma pequena agência de publicidade intelectual, que fornecesse a interessados o de que eles necessitassem: discursos, artigos, contos, poemas, cartas... Redigir é o nosso forte, e ganhar dinheiro, o nosso lado incompetente".

Essa, pois, é a página 201 do livro mais próximo deste que vos tecla. No caso, "Dossiê Drummond", de Geneton Moraes Neto, editado pela Editora Globo.

>> Hairshirt; R.E.M.; Green

>> O Anjo Pornográfico; Ruy Castro; Cia das Letras

Monday, April 21, 2008

Sobre Jatobás, Nardonis e a Mídia Enlouquecida

"Hoje eu sinto muita dificuldade para fazer reportagem policial. Sinto-me usado, quando o papel do repórter teria de ser outro; ele teria que fiscalizar a polícia e ajudar a sociedade. Hoje você acaba sendo uma espécie da ponta-de-lança da polícia. Se a polícia apresenta uma pessoa como sendo um “grande bandido”, você acaba embarcando e divulgando essa versão, e muitas vezes prejudica a vida desse suposto bandido ...".

Valmir Salaro, 1996.


Os desdobramentos do caso da menina Isabella Nardoni transformaram seu assassinato em um show de horrores. Associado a isso - e por meio das poderosas ferramentas da mídia -, todo o país converteu-se em um imenso romance policial de segunda.


A violência contra a pobre garota - o real elemento a ser debatido - vem sendo gradativamente esquecida. A morte da menina, propriamente dita, já não horroriza ou comove: esganada e atirada do sexto andar, Isabella tornou-se coadjuvante. A partir do enfoque da mídia, a vitima importa menos do que seus assassinos.


Uma das funções essenciais da imprensa é mostrar a verdade sobre o que ocorreu. Porém, nesse assassinato, não se quer a verdade, prefere-se acusar, julgar e terminar o assunto – pronto, qual é a manchete de amanhã?


(Trecho editado)


A imprensa pode colaborar na descoberta da verdade e informar à população, mas não pode arvorar-se o direto de julgar. A verdade material, só pode ser apurada por meio da justiça. Fazer justiça é a única maneira de encerrar horrores como os que ocorreram com Isabella (e pelos quais pouca gente está realmente se importando). Ainda assim - e esse é um debate clássico na teoria do direito -, mesmo a justiça tem dificuldades para chegar à verdade material, aos fatos como eles realmente aconteceram. Dados os imensos questionamentos e dúvidas presentes no caso, é sensato pensar que teremos de nos contentar com algum tipo de verdade formal, aquela que representa os fatos junto ao processo judiciário, limitada aos autos.


De forma lamentável, ao contrário do que ocorreu há pouco mais de um ano, quando o menino João Hélio foi despedaçado pelas ruas do Rio, Isabella passou a ser mero pretexto para despertar o espírito detetivesco, tanto dos mediadores como dos mediados.


>> Rádio Eldorado; Ao Vivo

>> A Raiz das Coisas - Rui Barbosa e o Brasil no Mundo; Carlos H. Cardim; Civilização Brasileira

Wednesday, April 09, 2008

Gonzo Kitchen

Stuff
- Filé, grande;
- Sal grosso e pimenta;
- Grelha, muito quente;
- Frigideira, também muito quente (de preferência, velha e sem cabo).

Modus operandi
- Coloque a frigideira no forno quente até avermelhar o metal;
- Tire a frigideira do forno e ponha sobre o bico do gás, aceso;
- Leve o filé à frigideira. Após tostar, vire o lado da carne;
- Para acertar o tempero, junte o sal grosso e a pimenta;
- Remova da frigideira e finalize na grelha.
 Steak gonzo, pois é. Recomenda-se o uso de grossas luvas culinárias.

>> Mensagem de Amor; Paralamas; O Passo do Lui

>> A Raiz das Coisas; Carlos Henrique Cardim; Civilização Brasileira

Tuesday, April 08, 2008

Os Outros: Edward Gibbon

"It has always been my practice to cast a long paragraph in a single mould, to try it by my ear, to deposit it in my memory, but to suspend the action of the pen till I had given the last polish to my work."

Segundo dizem, foi o mestre Edward Gibbon quem ensinou Churchill a escrever.

>> Supernatural Superserious; R.E.M.; Accelerate

>> The Economist

Friday, April 04, 2008

Segurança Nacional, Direitos Civis e Dossiês

Nosso noticiário político tem colocado em pauta um dilema bastante interessante para a democracia. Principalmente após a liberação do dossiê “Dilma” e desde o episódio da Caixa Econômica (envolvendo o caseiro Francenildo e o Ministro Palloci), passou-se a questionar até que ponto a segurança nacional pode intervir nos direitos civis. Em uma democracia recém-emancipada, como a nossa, tal debate nunca é irrelevante.

Em ambos os casos, houve sempre um vazamento de dados ou elementos que deveriam pertencer unicamente ao governo. Levando a uma pergunta óbvia: como a imprensa descobriu informações que dizem respeito exclusivamente ao governo? De certa forma, é correto assumir que os jornais não vivem realizando operações secretas contra o governo. Portanto, algum indivíduo entregou as histórias à imprensa. Ou seja, alguém com um elevado certificado de segurança vazou segredos da União.

Atualmente, acostumados com o conceito de invasão de privacidade (revistas, paparazzis, internet), tornamo-nos tão anestesiados com tais vazamentos que praticamente não discutimos as reais implicações do que tem acontecido: o governo vem liberando - a critério próprio - informação que deveria ser secreta. Quaisquer que sejam os responsáveis por tais “leaks”, o que presenciamos é uma extraordinária ruptura por parte daqueles que deveriam justamente proteger esse tipo de material.

No caso mais recente (o dossiê Dilma-FHC), a razão principal para os ataques foi a pretensa candidatura da Ministra Roussef ao Planalto, em 2010. O soerguimento de Dilma trouxe intensas críticas tanto da oposição quanto de parte da própria base do governo, que acham a escolha da Ministra inapropriada. O vazamento das despesas do Presidente Fernando Henrique foi, obviamente, uma maneira de tentar abater essa indicação - o que deve funcionar. Porém, o que importa aqui não é o opróbrio de Dilma, mas o fato de que o governo perdeu o controle de uma parte de seu staff. No cerne do debate, está o argumento de que o vazamento não é tão interessante por si só, mas que o mais importante é ter o governo contribuído para a reunião de informações tão relevantes sem sequer ter-se perguntado se isso não representava um sério gravame à liberdade.

No âmbito da ameaça à liberdade, é impossível imaginar que devassas individuais como as que têm acontecido não ponham nossa democracia em perigo. Decerto, dada a própria ambigüidade do conceito de liberdade, um bom debatedor poderia argumentar para ambos os lados (segredos de estado ou liberdades civis). A despeito do que diz a lei, porém, o dicionário Aurélio registra liberdade como a “faculdade de praticar tudo quanto não é proibido por lei”.  As recentes ações violam, portanto, tal conceito. O maior problema, nesses casos, é que se perde a previsibilidade sobre o que o governo fará com as informações que coleta.

Fique claro, porém, que discuto aqui não uma doença da democracia. O vazamento de informações sigilosas é um problema de governo e não de Estado. Governos (o atual ou qualquer outro) não são particularmente confiáveis na maneira como usam leis e informações. Ressalve-se, também, que crimes contra o patrimônio público (a farra com os cartões corporativos, por exemplo) precisam ser duramente perseguidos. O problema é que tais ilícitos devem ser combatidos dentro do rigoroso sistema de devido processo legal. Nossa atual Constituição, tentando sanar equívocos do passado, baseou-se na premissa de que o governo pode ser tão perigoso quanto criminosos comuns. Portanto, foram criados mecanismos que circunscrevem os poderes do Estado para que ações extremadas não ocorram. Grosso modo, tais instrumentos têm funcionado muito bem, garantindo a saudável estabilidade do país. Os arroubos atuais, contudo, são arrepiantes. 

A famosa afirmação dos inconfidentes mineiros, “liberdade ainda que tardia”, é uma premissa fundamental de nossa nação. Todavia, a complexidade do mundo moderno recomenda que a permuta entre liberdade e segurança seja debatida: vazamento de informações confidenciais é o sintoma de um perigoso câncer e o colapso de qualquer tipo de consenso é a metástase dessa doença. A busca de um sério equilíbrio dessas regras é que fundamentará, na verdade, nossa liberdade e nossa segurança.

>> Wake up call; Maroon 5; Fearless

>> The Economist

:: Atualização: o Pedro Dória levantou a pelota sobre a quebra da liberdade de expressão. Vale a olhada.

Wednesday, April 02, 2008

Chalaça


O engraçadíssimo livro de André Diniz e Antonio Eder: Chalaça, amigo do Imperador.



>> Chile Your Waters Run Red Through Soweto; Billy Brag; Help Save the Youth of America: Live and Dubious

>> Chasing the Flame - Sergio Vieira de Mello and the Fight to Save the World; Samantha Power; The Penguin Press