Wednesday, March 31, 2010

Blood For Oil

Ao longo de nosso passado, sempre debatemos sobre o que somos como comunidade política e o que desejamos para o futuro de nosso país. Apesar dos avanços, tal discussão redunda poucas soluções práticas. Como dizia Gilberto Amado, nossa história desconcerta o investigador.

Nas duas últimas semanas, em função da (re)partilha dos royalties do petróleo, estivemos discutindo a divisão fiscal no Brasil e, de certa forma, quase todas as intervenções estavam submetidas a injunções apaixonadas. Enfim, parecíamos voltar ao começo de tudo. Poucos ousaram tocar em nosso problema de fundo: a arquitetura federativa brasileira.

Por óbvio, o primeiro problema prático de todas as comunidades políticas é seu financiamento. Em uma sociedade, há despesas comuns que devem ser cobertas com a contribuição de todos. Como o tributo é o retorno de uma parcela dos bens obtidos pelos membros da sociedade, é natural que - na repetidíssima frase de Ruy Barbosa* -, a fim de obter igualdade, devamos tratar desigualmente os desiguais.

Ora, não há estados iguais na federação brasileira, da mesma forma que não há cidades iguais no Brasil. Portanto, se cidades e estados são diversos, multifacetados são também seus costumes, pactos e particularidades de convívio. Nesse sentido, a democracia deve contemplar cada cidade e cada estado em sua própria e particular forma de participar na federação.

Da mesma maneira, o convívio em qualquer dimensão pressupõe acordos, convênios e pactos essenciais ao regramento cotidiano. A fim de manter a estabilidade, esses acordos comunais – e o direito antigo já os sabia desde sempre – devem ser cumpridos. Pacta sunt servanda: é da inteligência jurídica romana que os acordos devem prevalecer enquanto permanecer a situação que os gerou.

Tal princípio basilar do direito civil e do direito dos povos não preponderou na nova divisão do petróleo proposta pelo Deputado Ibsen Pinheiro. Argumentou o Parlamentar, com meia razão, que os proventos do petróleo devem ser repartidos por igual na federação. O raciocínio não é de todo errado, desde que feito com as novas reservas, a serem descobertas daqui para frente.

Ilógica e carente de bom senso é a inversão tributária ocorrida a partir da emenda ao Projeto de Lei então apresentada**. E, pior ainda, pretende-se agora que a União pague pelo problema que não criou.

Grosso modo, a sociedade pátria desapercebeu-se que não se tratava apenas de um “choro” do Rio de Janeiro. O que ocorreu foi verdadeira quebra de contrato.

Por exemplo, apenas para dimensionar o tamanho do problema, o ICMS dos derivados do petróleo é cobrado apenas no estado em que se comercializam os produtos – e não pela regra tradicional, segundo a qual o imposto deveria ser cobrado no estado de origem. Salvo engano, não ouvi nenhum debate acerca do reacerto desta taxa.

Diante de tal cenário, Gilberto Amado não poderia ter maior razão: vivemos “uma série de esforços arquejantes, que não se conjugam, não se integram num conjunto. Não conhecemos a marcha continuada, o lento ascender de passo firme. Vivemos sempre a recomeçar”. Nosso regime parece ser o da inconseqüência.

>> Conselho; Marcelo D2 e Marcelo Mira; Álbum Desconhecido
>> Diário de Bordo: A Viagem Presidencial de Tancredo; Rubens Ricupero; Imprensa Oficial

* Em seu texto, o jurista baiano parecia conduzir às lições de Aristóteles sobre justiça distributiva: a igualdade citada era, em essência, uma proporção a ser aplicada na divisão de objetos entre pessoas. Caso os prezados queiram se aprogundar, vejam o livro V da Ética a Nicômaco.

** Ao contrário do que muitos jornalistas afirmaram, a proposta do pré-sal não trata de Emenda Constitucional.

Friday, March 26, 2010

Os Outros: George Best

"Gastei meu dinheiro com mulheres lindas, carros possantes e casas maravilhosas. O resto, desperdicei."

O glorioso jogador George Best, no campo da filosofia.

>> Jumpin' Jack Flash; Ananda Shankar; What It Is! Funky Soul and Rare Grooves (1967-1977)
>> Diário de Borodo: A Viagem Presidencial de Tancredo; Rubens Ricupero; Imprensa Oficial

Sunday, March 21, 2010

Conselhos ao B.

#10 A política pode ser uma atividade nobre.
Conforme a frase de Václav Havel: "genuine politics - even politics worthy of the name, the only politics I am willing to devote myself to - is simply a matter of serving those around us: serving the community and serving those who will come after us. Its deepest roots are moral because it is a responsibility expressed through action, to and for the whole".

>> Head On; Legião Urbana; Acústico MTV
>> Umbigo Sem Fundo; Dash Shaw; Quadrinhos na Cia - um dos melhores quadrinhos que li recentemente.

Friday, March 12, 2010

Adiós, Glauquito


Silêncio, o artista sai de cena. Não há o que dizer.


Cresci rindo e me divertindo com as piadas, infâmias e ironias do Glauco. Somente os que leram as revistas sabem o sentimento daqueles de minha geração.

Passei a adolescência lendo as revista do Glauco, do Angeli e de todos os demais ilustradores da pós-redemocratização. Eram sempre piadas engraçadas, aliadas a traços originalíssimos e muita crítica social – elemento comum a um país sedento por democracia.

As histórias do Glauco agradavam a jovens e adultos. Alegravam, inclusive, meu pai: o Geraldão foi um dos primeiros quadrinhos que lemos juntos durante minha adolescência e por meio do qual trocamos algumas confidências.

Por isso, a odiosa morte do artista é, também, a perda de um dos mais originais expoentes do humor brasileiro dos anos 80. É um de “Los 3 Amigos” que se vai.

A perda – na circunstância em que ocorreu – é ainda pior, pois plenamente evitável. Diante da violência fica a sensação de impotência e indignação.

Todavia - e felizmente -, a arte do desenhista sobreviverá ao tempo. Sobre o assunto, vale ler excerto de um livro chamado “Tumbas”, escrito por Cees Nooteboom e belamente editado pela Actes Sud. A obra é um tanto soturna – traz fotos de 82 túmulos de escritores e filósofos famosos -, mas a beleza do texto merece citação:

“A maioria dos mortos se cala. Eles não falam mais nada. Eles já disseram literalmente tudo o que tinham para dizer. Com os poetas é diferente. Os poetas continuam a falar. Eles têm a peculiaridade de se repetir. É o que acontece cada vez que um leitor lê ou recita um de seus poemas, pela segunda ou a centésima vez. Mas os poetas se dirigem da mesma forma aos que ainda não nasceram, às pessoas que ainda não viviam quando eles escreviam o que escreviam. (...) Esta pessoa ainda fala conosco, ainda nos diz algo, algo que ainda ecoa em nossos ouvidos, algo que guardamos e que talvez não esqueçamos nunca mais, algo que decoramos e que, de vez em quando, repetimos alto ou em voz baixa”

Dessa forma, o presente texto é minha tentativa de homenagear um sujeito que foi bacana durante minha juventude, alguém que fez a mim e aos meus amigos rirmos muito. Em momentos os mais simples, as tirinhas do Glauco foram impagáveis.

Bzzzzz.

>> La Vie en Rose; Louis Armstrong; Wall-E
>> Direito Agrário Brasileiro; Benedito Ferreira Marques; Atlas

Sunday, January 31, 2010

Gonzo Kitchen: Mini-abóboras Recheadas


Ingredientes:
- 6 mini-abóboras
- 200 g de shimeji
- 1 dente de alho sem casca
- 150g de queijo gorgonzola
- 150g de cream cheese
- 1 lata de creme de leite
- pimenta do reino e sal a gosto
- azeite de oliva
- papel alumínio

Como fazer:
- Corte a tampa das abóboras e limpe-as por dentro, removendo todas as sementes e fibras. Lave o interior dos vegetais.
- Limpe o shimeji e reserve
- pique o dente de alho em tiras finas
- coloque o gorgonzola, o cream cheese e o creme de leite em uma tigela. Amasse com um garfo até obter uma pasta uniforme.
- Coloque um pouco de azeite, o shimeji e o alho em uma panela, mexendo, de vez em quando, por 7 minutos. Junte a pasta com os queijos e coloque a pimenta.
- Distribua o creme dentro de cada abóbora, divindo de maneira igualitária.
- Forre a parte inferior de cada abóbora com papel alumínio (assim, elas não grudarão na assadeira).
- Em uma assadeira funda, coloque as abóboras.
- Ponha água até o meio, a fim de formar um "banho-maria".
- Leve ao forno em temperatura média por cerca de 35 minutos. Para ter certeza de que está pronto, enfie um palito de dentes na casca da abóbora: se estiver macia, sirva sem medo.

Junte os melhores amigos que há, algumas garrafas de Bordeaux e, voilà, divirta-se.

>> Poker Face; Lady Gaga; The Fame
>> Clarice; Benjamin Moser; Cosac Naify

Friday, January 29, 2010

iJobs

“Wow!” - iPod, 2001
“Wowww!” – iPhone, 2007
“Well…” – iPad, 2010

>> Slave To The Wage; Placebo; Placebo
>> Clarice; Benjamin Moser; Cosac Naify

Friday, January 22, 2010

You Few, You Happy Few


Neste final de semana, realizar-se-á mais um concurso de admissão para a carreira diplomática (CACD). Ao contrário de anos anteriores, não prestarei os exames. De certa forma, é estranho não fazer a prova depois de tantos anos: os temas e as questões não me saem da cabeça.

No CACD, ao menos para mim, o cotidiano e a situação do Brasil sempre foram assuntos recorrentes. Sobretudo, o estudo da história brasileira era das matérias que mais me agradava. No caso do Itamaraty, valia prestar atenção ao passado brasileiro e à maneira como esse contribuiu para nossa inserção internacional. Acima de tudo, em meus estudos, sempre percebi ênfase positiva na avaliação de nossa história.

Ao contrário da frase de Stephen Dedalus, personagem de James Joyce em Ulysses, a história brasileira não é um pesadelo do qual precisamos acordar. No mesmo sentido, penso, quando observamos nosso passado, devemos simplesmente esquecer o anjo de Paul Klee: as cenas de tristeza e desencontro humano, malgrado sejam imperfeitas, contribuíram na formação de nossa individualidade.

Apesar do ceticismo de Joyce e Klee, creio termos sobrevivido porque, em meio ao pesadelo, sempre existiram a esperança e a possibilidade de criarmos um país melhor. De minha parte, imagino que a diplomacia e as relações internacionais devem servir exatamente para esse fim.

Malgrado vivamos oscilando entre o desânimo e a confiança, sempre fomos capazes de superar nossos mais terríveis fantasmas. E, talvez, essa tenha sido a maior lição que extraí após tantos anos estudando para ingressar na Casa de Rio Branco: nossa história não é o passado equivocado que alguns tentam nos impingir.

Essa afirmativa, entretanto, não é de todo evidente para o leigo. Avançamos cotidianamente, mas os percalços aparentam-se maiores no imaginário do observador comum.

Festejamos o Ipiranga, e o jovem príncipe foi visto como o protetor da nacionalidade que nascia. Menos de dez anos depois, o herdeiro tornar-se-ia um absolutista do qual nos envergonharíamos – e dele nos livramos nos ventos liberais de 1831.

Logo após, a República prometeu-nos democracia e descentralização. Sonho não de todo alcançado até hoje. A Aliança Liberal e a conseqüente Revolução de 30 foram frustradas pela irracionalidade daqueles tempos. Depois da tibieza de Dutra, alguma esperança tivemos com a retomada do projeto desenvolvimentista de Vargas e JK. Apesar de custosos ao país, foram essenciais a nossa inserção na modernidade.

Sucessor de JK, Jânio revelou-se fraco: um terno vazio. Qualquer tenha sido o motivo da renúncia impensada – covardia moral ou quiçá outra coisa – o gesto de Jânio decepcionou a nação e fez-nos mergulhar no obscurantismo por vinte longos anos. Ainda assim, avançamos: apesar de conservadora, a modernização implantada pelos militares é inegável.

Então, findo o interregno repressivo, a esperança alternou-se para a Assembléia Nacional Constituinte – que promulgou uma boa Constituição, apesar das críticas de alguns. Avançamos, mais uma vez.

Depois, lamentavelmente, a burocracia paulista desmontou a estrutura estatal criada por Vargas/JK e preservada até pelos militares. A década de 90 quase assistiu ao desmantelamento estrutural da nação. Ainda assim, perseveramos: o plano Real até hoje confirma essa assertiva.

Após todos esses anos, enfrentadas as vicissitudes, o país parece começar a reerguer-se e a esperança a nos assistir. Não podemos deixar, neste momento, que eventuais forças alienígenas atrasem nosso encontro com o destino. É preciso sonhar – e fazer. Exatamente a tarefa maior da diplomacia.

Nossa grandeza está dentro das fronteiras nacionais e no convívio amistoso com os outros povos. É essa convivência, serena, insubmissa, firme, cordial, que nos fez brasileiros. Dessa postura, expressa pelo Itamaraty, não nos devemos afastar. Ao longo de todo o tempo, a diplomacia sempre nos logrou proteger. E, invariavelmente, como falei, avançamos muito.

Grosso modo, esse é o legado que, futuramente, os postulantes ao exame de domingo vão defender. E, também de certa forma, o presente texto é minha homenagem a esses “guerreiros”.

Portanto, caros amigos, ao fazer a prova, lembrem-se da lição do corneteiro de Pirajá: avancem degolando. Afinal, senhores, nas palavras do Chanceler Leitão da Cunha, a diplomacia está lá, à espreita, lhes esperando.

>> Hallelujah; Susanna and the Magical Orchestra; Melody Mountain
>> Clarice; Benjamin Moser; Cosac Naif

Sunday, January 17, 2010

Pós-modernos, Parker e Les Gouttes


Recentemente, fui presenteado com alguns bons rótulos de vinho. Alvissareiros presentes, aliás: minha pequena adega já estava criando teias de aranha.

Após degustar uma das garrafas, fiquei pensando sobre um tópico muito familiar aos apreciadores de vinho: quais são os fatores que influenciam nossas escolhas acerca de qual vinho comprar? Alguém ainda acredita que Robert Parker é a ”referência” mundial sobre vinho?

Eis que, para minha surpresa, a resposta da segunda pergunta parece ter mudado. Mr. Parker não é mais o líder mundial em referência enóloga. Ao que parece, o norte-americano perdeu seu lugar para um fenômeno chamado Les Gouttes de Dieu (As Gotas de Deus).

“As Gotas” é um mangá japonês e foi considerado pelo Gourmand World Cookbook como o “melhor livro do mundo sobre o vinho em 2009”. A Decanter, importante publicação no mundo do vinho, o citou como um dos livros mais influentes dos últimos anos.

A série começou a ser publicada em 2004 e hoje possui 22 exemplares. Posteriormente, a publicação seguiu para Coréia do Sul, Hong Kong, Taiwan e, da Ásia, passou a ser editada também na França. Apenas para se ter uma idéia da força conquistada pelo livrinho, em 2007 foram impressas 500.000 cópias. Em essência, todos os vinhos que aparecem no mangá são autênticos.

De início, o mundo do vinho não deu muita importância a esse novo objeto. Entretanto, quando o desconhecido Château Mon-Pérat, citado pela revista, viu seu millésime 2001 vender 20.000 garrafas em pouco tempo, os especialistas se aperceberam da novidade.

Os dois irmãos autores do quadrinho são grandes conhecedores de vinho e criaram uma história dentro da tradição de contos japoneses. No roteiro, um famoso degustador morre e seu filho, a fim de receber a herança paterna, deve provar ser melhor do que o pai. Na busca por comprovar sua perfeição, o garoto é acompanhado por um mendigo alcoólatra, uma estagirária-sommelière e um amigo enlouquecido por vinhos italianos.

A importadora japonesa, Enoteca, por exemplo, afirma que os personagens do livro são hoje responsáveis pelos pedidos da empresa. Na Coréia do Sul, a venda cresceu de modo significativo, com os vinhos passando de menos de 1/3 do mercado para cerca de 70% das vendas de bebidas alcoólicas. As vendas de um vinho chamado Umberto Cosmo's Colli di Conegliano Rosso também cresceram 30% após o rótulo ter sido citado na revista.

O interessante – e inusitado – é que parte do interesse pelo mangá pode ser creditado ao fato de a revista ensinar sobre vinhos de um modo que entretém. Em 2009, como falei acima, a Decanter incluiu a publicação em sua “Power list” na colocação de número 50, com a citação de que o trabalho é a mais influente publicação sobre vinho em 20 anos. Robert Parker tremeu, portanto.

A notícia, de certa forma, é muito boa. Ao contrário do que previam e tentaram os americanos, o mundo parece não estar se curvando a um gosto universal sobre vinhos. Felizmente, valem ainda o inesperado e a boa qualidade - como não poderia deixar de ser em um produto que carrega a identidade do terroir no qual é produzido.
----------------------------------------------------------------------------------
Eu ia escrever algo sobre a tragédia no Haiti. Entretanto, após ler o lúcido texto do Maurício, resolvi colocar um link aqui.

>> Um Dia Em Provença; Paralamas do Sucesso; Hey Nana
>> O Planalto e a Estepe; Pepetela; Leya Brasil

Saturday, January 09, 2010

No Teu Deserto

“- Nós não nos perdemos! – garanti-lhe, com uma pose tranquila e confiante, como se estivesse a ensaiar para um filme.
- Não? E porquê?
- Porque somos portugueses: há quinhentos anos que andamos por toda parte e conseguimos sempre voltar a casa”.
Acabei de ler o novo livro do Miguel Souza Tavares, “No Teu Deserto”. Pela terceira vez, o autor lusitano correspondeu minhas expectativas. O livro é tão enxuto – e bem escrito – que comprei-o à noite de ontem e virei a última página duas horas depois. Por sorte, a Companhia das Letras manteve o português em sua original versão.

Talvez, na língua pátria, Souza Tavares seja um dos melhores escritores da atualidade. Seus livros anteriores, “Equador” e “Rio das Flores” são também muito bons - “Rio das Flores”, porém, talvez seja o mais fraco dos três que li. Junto com Mia Couto, Pepetela e outros autores, a nova safra de escritores lusófonos está revigorando o romance da língua de Camões.

Estranhamente, todavia, entre os melhores escritores em língua portuguesa atuais, não consigo incluir nenhum brasileiro. No grupo dos melhores, as nacionalidades derivam entre Angola, Portugal e Moçambique, sobretudo. Não por acaso, recentemente elegemos Paulo Coelho para a Academia de Letras - nada a comentar, enfim.

No caso de Souza Tavares, o fato de ser filho da poetisa Sophia de Mello Breyner deve ter ajudado muito. Além disso, Tavares é declarado amante do Alentejo e, como os prezados sabem, quem não se rende de forma absoluta ao Alentejo, não merece saber que o rio existe. Para um escritor português, essa característica é fundamental – Fernando Pessoa, de alguma forma, também sabia disso.

“- Estava a pensar se há viagens sem regresso. E que nunca mais vou voltar desta viagem. Nunca mais vou regressar do deserto.”
O livro, em si, é relativamente simples: um “road-book” sobre a viagem inesperada de um casal desconhecido ao deserto argelino. Tudo a bordo de um velho jipe UMM, cheio de enlatados, garrafas de whisky e muita aventura.

De forma despropositada, o livro põe o leitor dentro da história. Um conto/romance que dói e faz rir ao mesmo tempo. É um livro de viagem que o leva dentro da viagem: deixa o leitor com areia nos olhos, com fome e frio. Deixa-nos vazios, como o deserto: a olhar estrelas. E, depois, com a estranha sensação de que tudo acabou muito depressa.

"No teu deserto" é uma carta a quatro mãos. Acima de tudo, uma carta sobre o que não se disse numa viagem de 40 dias ao deserto, realizada em 1987.

Vinte anos depois, ao tentar “reviver” a viagem, o protagonista descobre morta sua companheira (isso não estraga o livro, ela morre na primeira linha da história). Como 20 anos é muito tempo, as cartas chegaram tarde demais. É um livro sobre desencontros.

Como dizia Machado de Assis, escrever é mera questão de colocar acentos. Miguel Souza Tavares parece ter aprendida a lição: “No Teu Deserto” é simples como só, tão simples que dificilmente poderia ser melhor.

“As coisas mudaram muito, Cláudia! Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia de suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, “leves”, disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.”

>> Matamoros Banks; Devils & Dust; Bruce Springsteen
>> No Teu Deserto; Miguel Souza Tavares; Companhia das Letras

Thursday, December 24, 2009

Feliz Natal

Esta semana, o incomum tornou a acontecer. Em Nazaré, recentes escavações revelaram uma casa da época de Cristo e, de certa forma, mostraram a pobreza daqueles tempos. A singela construção evidenciou a realidade de uma época na qual culturas alienígenas, aos moldes de hoje, impunham supremacia política sobre a Palestina: no passado, os romanos; hoje, os ocidentais. Vinte séculos depois e pouca mudança, portanto.

O inusitado é que, tanto no passado quanto hoje, essa mesma política agiu como válvula de escape. Estranho possa parecer, a política, talvez a mais importante das ações humanas, serviu também a Cristo e seus apóstolos.

Em comunidade, tudo o que fazemos - ou deixamos de fazer – interfere no todo: o ato de um simples indivíduo pode liberar mudanças que alteram o cotidiano. Como disse Margareth Mead, jamais devemos duvidar que um pequeno grupo de pessoas comprometidas pode mudar o mundo.

Na verdade, nunca aconteceu de outra forma. Para alterar a história, Cristo precisou de treze pessoas apenas. O Senhor foi político, recusava o sistema romano, sobretudo. Contra César, pregava ao povo a revolução de igualdade e justiça: “a Cesar o que é de César, a Deus o que é de Deus”.

Qualquer que seja a interpretação da presença e da dimensão histórica atribuídas ao Nazareno, Ele agiu, no plano da realidade de seu tempo, como um político. Característica que não lhe exclui ou diminui a transcendência: ao contrário, o fato de o filho de Deus ter sido também um político deveria envergonhar alguns de nossos homens públicos de hoje.

A glória do Cristo se confirma na necessidade, naquele momento, e em toda a História, de sua presença no sentimento da humanidade. Decerto, todos os que o negam, acabam por confirmá-lo em algum momento da vida. Confirmam-no quando se encontram em aflição e o reafirmam quando são tocados por instantes de êxtase, de alegria e de indignação contra os opressores. Testificam-no na dor ou no amor, conforme diz o Livro Sagrado.

No mesmo sentido, somente em sua igualdade é possível entendermo-nos como irmãos: na face e nas mãos, nos olhos e nos lábios, na voz, no riso e nas lágrimas. Nós somos o que somos, e seremos maiores no tempo e no mundo, quando formos iguais, uns diante dos outros.

Dessa forma, o Natal é a festa do nascimento de Jesus porque é a festa do nascimento de todos nós. Por certo, a mensagem Dele é mais poderosa do que as instituições que reivindicam seu nome: é a palavra do Filho do Homem, para os homens; a essência de um para todos.

Para os não crentes, entretanto, Cristo é - da estrela de Belém ao Calvário - uma resposta do homem à sua própria necessidade. Porém, mesmo o agnóstico reconhece que na hora da morte, diante do ângulo reto, o Salvador – como qualquer homem – recorreu a Deus, perguntando-lhe o motivo do abandono. Nesse momento, o descrente talvez perceba o milagre: no reconhecimento da fragilidade humana, estava a grandeza da transcendência de Jesus.

O Natal, enfim, é nosso curvar a esse Mistério. É aceitar o que fez de um homem frágil, que não conseguia sozinho carregar a cruz, o Maior dos maiores.

Por isso, não podemos esquecer o Natal havido no ano zero. Mesmo com toda dificuldade e pobreza, surgiram a estrela, Baltazar, Belchior, Gaspar, incenso, ouro e mirra. Pensar diferente, nos dias de hoje, seria desonrar a memória daquele que veio para nós e até nós.

>> Leaving New York; Around The Sun; R.E.M.
>> Novo Processo Civil Brasileiro; José Carlos Barbosa Moreira; Forense

Saturday, December 05, 2009

PII


"Neste hotel, viveu seus derradeiros dias o Imperador do Brasil, Dom Pedro II. Grande patriota, protetor das ciências e das artes, amigo de seu povo"
Em 5 de dezembro de 1891, no quarto 18 do Hotel Bedford, Paris, morria o Imperador D. Pedro II. Antes de sucumbir, o monarca pediu um travesseiro no qual houvesse terra brasileira para servir de apoio a sua cabeça. A transcrição acima é de uma placa colocada à porta de entrada do hotel.

Nas palavras do Novo Dicionário Dinâmico da Língua Portuguesa, Priscila Morales descreve: “Nenhum monarca desceu do trono com tanta dignidade e moral tão elevada quanto Pedro II. Foi um soberano inatacável, cultivava o direito, a justiça e a tolerância como pontos básicos de seu governo. Recusou uma pensão que a República lhe oferecera, jamais acusou aos que o traíam e nunca, no exílio, deixou um só momento de interessar-se pelos problemas da pátria distante. Protetor das artes e das letras, fomentador da imigração, difusor da instrução pública, amigo do progresso, Pedro II ainda hoje merece o respeito e a admiração dos brasileiros”.

Para quem mora em Brasília nos dias que correm, as citações deixam saudade. Uma pena.

>> Vagabond; Wolfmother; Wolfmother
>> Memorial de Aires; Machado de Assis; Obra Completa

Sunday, November 22, 2009

Os Outros: Zappa

"Um país não pode ser um país de verdade se não tiver ao menos uma cerveja e uma empresa aérea. Ajuda se tiver uma equipe de futebol, ou armas nucleares, mas o mais importante é a cerveja."

O glorioso Frank Zappa, a filosofar.

>> The Killing Jar; Siouxsie And The Banshees; Peepshow
>> Teoria Pura do Direito; Hans Kelsen; Martins Fontes

Tuesday, November 17, 2009

Conselhos ao B.

#9 Sempre devolva o carrinho do supermercado
Abondonar o carrinho no meio do estacionamento é deseducado e implica alguém ter que colocá-lo de volta ao lugar. Esse alguém deve ser você.

>> Fly One Time; Ben Harper; White Lies For Dark Times
>> O Fantasma; Robert Harris; Record

Thursday, November 12, 2009

Uniban x UNBiners

Pois é, parece ter faltado formosura e encanto ao protesto dos alunos no Cerrado. Talvez, caso estudassem no Leblon, os prezados não se aventurassem de forma tão... digamos, "solta".

Lex

Em alguns lugares por aí, hoje é 04 de agosto de 2009.

Tuesday, September 29, 2009

Efeméride 101

Caro Machado,

Não sejas temperamental. Ainda faltam algumas horas até o fim do dia. Tenho tempo para uma modesta homenagem a sua ausência.

Cento e um anos? Quem diria que ainda te leriam por aqui.

Às vezes penso que o destino se cumpriu, meu caro. Tu mesmo foste um dos primeiros a dizer que a história deve ser contada por aqueles que já foram. O velho Brás Cubas está aí para me confirmar.

Sabes, Machado, nem sempre tenho certeza se algum dia tu realmente foste embora. Nem sempre. OK, talvez tenha faltado o livro definitivo, a coroação depois das Memórias Póstumas. Embora eu não concorde, os críticos vivem dizendo: “Machado foi perfeito, mas faltou dar continuidade ao seu melhor romance”. Chatos, ora bolas, tu os sabes.

Enfim, mal consigo imaginar se um dia surgirá outro brasileiro bacana, a escrever o cotidiano de modo tão refinado e certeiro. Graciliano e Guimarães foram muito bons, mas faltou-lhes a ironia, a graça. Eram comunistas, pombas. Viam leveza apenas no sofrimento do homem. Tu, meu velho, foste diferente: a angústia humana era teu gracejo.

Talvez não te recordes, mas fomos apresentados lá pelo final da década de 1980. Uma professora de redação nos aproximou. Fomos amigos desde então, meu caro.

Quiçá seja impossível lhe agradecer pelos papos sempre intermináveis, por dizer o que não se queria falar. Acima de tudo, por teu conforto dentro da angústia.

Ora, é verdade. Todos sabemos que o homem escreve para matar a morte. Tu não o fizeste diferente: redigiste o primeiro livro escrito por um morto. Mataste a morte duas vezes.

Alguns de tua época não te perdoaram por ter escrito sobre a vida assim, tão despudoradamente. Deixaste-os nus perante todos, camaradinha. Ironicamente, talvez por isso, tens a admiração que mereces. De qualquer forma, não há raciocínio nem documento que nos explique melhor a intenção de um ato do que o próprio autor do ato, tu mesmo te gabavas de dizer.

As coisas não estão boas por aqui, sabes. Ontem lançaram uma terceira edição de “A Cabana” e o Dan Brown continua a se esfalfar na língua do Bardo. Há, até, uma geringonça que promete matar os livros. O Paulo Coelho, também ele, mantém a produção. Esquecidos, meu amigo, não lembram que a imaginação e o espírito têm limites. Parecem não ter aprendido que escrever é uma mera questão de colocar acentos e, assim, continuam a florear o papel.

Continuam, eles, a não nos respeitar – na verdade, estão longe disso. Ainda bem que tu não estás aqui para saber de algumas coisas.

Embora alguns amigos digam que tu estás datado, todos continuam a lê-lo – e não só por quinze meses e onze contos de réis. Eu sorrio e sigo em frente: o melhor drama está no espectador e não no palco, lembra-me.

Sinto saudades, sobretudo. A patroa, respeitosa, também sente tua falta. Sempre falamos de ti. Outros amigos - sábios - mandam lembranças. Sentem a nostalgia de tua imoralidade.

Continuamos, pois. Sem sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres ou brocardos jurídicos. Claro, os discursos de sobremesa continuam a exigir esses floreios. Nós, todavia, leitores teus, entendemos a ironia e ficamos calados quando batem a ponta da faca no meio do copo e pedem a palavra. De modo desbragado, eles falam. Nós continuamos quietos, Machado, a esperar um telefonema teu.

Até mais ver. Abraços e recomendações a Dona Carolina.

>> The Cutter; Echo & The Bunnymen; Porcupine
>> O Novo Processo Civil Brasileiro; José Carlos Barbosa Moreira; Forense

Thursday, September 24, 2009

F#@$

Ontem, após ver o o discurso do Presidente Lula na ONU, lembrei-me de uma situação que presenciei recentemente. O caso aconteceu em um proeminente gabinete da Esplanada e foi um tanto inusitado.

Estavam no recinto cerca de 10 pessoas. Na TV, transmitia-se a cerimônia de lançamento do Pré-Sal, mais precisamente o discurso de Lula. Eis que, silêncio na sala, um luminar acima de qualquer suspeita afirmou, algo intropesctivo: "Esse cara é f+$#. O mundo está acabando e ele quer que se f#$@".

O comentário, ao contrário do que parece, foi respeitoso, quase idólatra. Cai o pano.

>> There She Goes Again; Dead Letter Office; R.E.M.
>> O Novo Processo Civil Brasileiro; José Carlos Barbosa Moreira; Forense

Saturday, September 19, 2009

It's Snowing


>> Ronca-Ronca; 15/09/09; Oi Fm Stream
>> Revista Piauí; Setembro

Tuesday, September 15, 2009

Conselhos ao B.

#8 Seja pontual
Auto-explicativo

>> Surfando Karmas & DNA; Engenheiros do Hawaii; Acústico MTV - Engenheiros
>> Revista Piauí; Setembro-2009

Friday, September 04, 2009

20, 30 e 48

O mundo mudou, senhores. Mídia Social é o nome da pós-pós-modernidade.



>> Relator; Pete Yorn & Scarlett Johansson; Break Up
>> Mercosul