Monday, May 17, 2010

Conselhos ao B.

#12 Orgulhe-se de seu trabalho

>> Vida da Gente; Zeca Pagodinho; À Vera
>> Um Ano na Provence; Peter Mayle; Rocco

Friday, May 14, 2010

Drummondis

Esta semana, precisei escrever um texto sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade. De certo modo, a prosa drummondiana ficou presa em minha cabeça desde então. Felizmente, a arte do poeta sobreviveu ao tempo.

Por meio de seus poemas, o trabalho de Carlos Drummond de Andrade representa momento ulterior do Modernismo na literatura pátria. Em seus textos, o poeta aprofundou e amadureceu as conquistas da geração de 1922.

No aspecto formal, os novos poetas modernistas – Drummond entre eles – continuavam a pesquisa estética iniciada na década anterior e demarcada pelo verso livre. De tal forma que relativa influência da obra de Mário de Andrade pode, inclusive, ser percebida em seus poemas. Hoje reconhecidos como elementos drummondianos, a poesia sintética e o verso curto foram elementos utilizados de forma profícua pela escola modernista original e, posteriormente, renovados pelos poetas da coorte pós-22.

Foi na temática, entretanto, que se percebeu a maior expressão dessa remoçada postura artística. Drummond, por exemplo, passou a questionar com maior vigor tanto a realidade quanto a si mesmo. O poema “Legado” é um exemplo dessa dualidade, no sentido de que o poeta pergunta-se acerca de merecer mais do que os outros ou não. Ato contínuo, o autor indaga acerca de seu eu e, por conseqüência, da herança deixada pelo artista na complexidade do mundo contemporâneo ao final da Guerra Fria: o titulo do poema é, assim, a síntese do argumento proposto pelo itabirano.

A partir de tais preceitos, a literatura de Drummond redundou mais construtiva e politizada, que não se podia afastar das imensas transformações ocorridas no período. Malgrado tenha sido época de incertezas, Carlos Drummond de Andrade utilizou-se de temáticas definidas e compromissadas a fim de aprofundar as relações do eu – humano - com o mundo, ainda que com a certeza da fragilidade do primeiro. De certa forma, a relação dialética entre as escolhas vocabulares efetuadas pelo escritor representa tal característica.

Essa consciência, longe de significar derrotismo, apresentou-se como perspectiva singular adotada pelo poeta a fim de enfrentar tempos assimétricos e, ainda, contribuiu para transformá-lo em um dos maiores escritores brasileiros. Suas conquistas acompanharam a evolução dos acontecimentos e registraram grande parte dos eventos no cotidiano humano, embora quase sempre sintetizados em universos fechados e despersonificados: como falei acima, o “legado” não deixado em nenhum canto radioso é exemplo maior desse distanciamento pessoal.

Dessa forma, Drummond, possuído de alguns momentos esperançosos, logo após tornava-se taciturno, isolado dos acontecimentos. Acima de tudo, porém, foi um poeta que negou todas as formas de fuga da realidade e manteve atenta percepção ao presente, voltada para o mundo e para os seus iguais. Porque, como muito bem o disse, não se pode sozinho dinamitar a ilha de Manhattan.

>> Novos Horizontes; Engenheiros do Hawaí; 10.000 Destinos
>> Um Ano na Provence; Peter Mayle; Rocco

Friday, April 30, 2010

Os Outros: Guilherme Fiúza

"Com a pista livre, Boni foi verificar os índices de audiência: os cassestas grosseiros e anônimos tinham superado os trinta pontos no ibope. Sucesso total. Com a alma lavada e os números mágicos na mão, o diretor correu à sala de Roberto Marinho.
O Chefe ficou feliz com as notícias sobre a ampla aceitação do público. Mas continuou ressabiado:
- Boni, eu acho pesado. Vai ser sempre assim?
- Não, doutor Roberto. Quando os rapazes ficarem mais à vontade vai piorar um pouquinho...".
O novo livro de Guilherme Fiúza, "Bussunda - A Vida do Casseta". Veja lá o primeiro capítulo.

>> There She Goes Again; R.E.M.; Dead Letter Office
>> Os Espiões; Luis Fernando Verissimo; Alfagarra

Saturday, April 17, 2010

Enquanto isso, lá no Pontão...

A foto acima foi tirada em um ensolarado momento no Pontão do Lago Sul. A imagem vale por si.

>> Sports et divertissements (21 Sports and Diversions), for piano: No. 16, "Le water-chute"; Eric Satie; Satie: Popular Piano Works
>> Revista Piauí; Abril 2010

* A autoria da foto é de Junior Behrens

Thursday, April 15, 2010

Alvíssaras

Lá, no blog do Canani, você encontra notícia mais do que interessante. Em transcrição literal:
"saiu, no final do mês passado, o quarto relatório brasileiro de acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Leio que a pobreza extrema caiu, no Brasil, de 1990 até 2008, de 25,6% para 4,8%. No penúltimo relatório, de 2007, esses índices eram 8,8% para 1990 e 4,2% para 2005."
Para além de eventuais críticas, a novidade é muito boa. Como diria um famoso colunista de O Globo, "com bolsas anti-fome, suspensão de impostos, piques de empregos formais, pacs e repacs e trancos e barrancos o governo está inserindo cada vez mais gente na vida econômica do país".

>> Chocolate Chip; Miles Davis; Doo-Bop
>> Revista Piauí; Abril 2010

Monday, April 12, 2010

Chuva de Idéias

Hoje, faz uma semana que desabou o morro do Bumba. Não é uma data a se comemorar.

A tragédia, infelizmente, demonstrou mais uma vez nossas assimetrias. Ao longo dos anos, o Brasil arrasta o pecado das desigualdades. E é nas regiões mais pobres que as diferenças sociais se acentuam: talvez uma das marcas mais tristes deste nosso começo de século seja a falta de solidariedade/humanidade para com os pobres.

No Brasil, pouco se pretende conceder a essa parcela da população. Somente aos trancos, nosso “contrato social” aceita pender um pouco para o lado humilde do país. Não foi diferente na semana que passou: o descaso mostrou sua pior face, 232 mortos até o momento em que escrevo. Apesar da politicagem e das promessas de que tudo vai mudar, pouco coisa concreta foi feita no Rio de Janeiro.

Conforme resumiu Raymond Aron, a pobreza – brasileira, inclusive – pode ser medida pela diferença entre o que se quer e o que se tem. Faz-se necessário reconhecer que não basta remover as favelas e sanear a cidade. Por certo, essas são medidas importantes, mas que não comportam fins em si mesmas. Tese maior recomenda trabalhar em dois sentidos a fim de não repetirmos a tragédia da semana passada: educar o povo para a consciência de seus direitos e educar nossas elites para o patriotismo.

É necessário reduzir as desigualdades. Na frase de Tancredo Neves: “um país justo é aquele no qual o Estado contém a ganância dos ricos e eleva a renda dos pobres, de maneira a construir a mais ampla classe média possível”. Tivéssemos concretizado essas palavras, o morro do Bumba simplesmente não existiria.

Para além desse cenário, o mais grave desta nossa época estéril não é apenas a ausência de solidariedade, mas a falta de idéias. Não que faltem as absurdas, como, por exemplo, a contratação da Fundação Cacique Cobra Coral para “intervir” nas precipitações meteorológicas cariocas. Idéias há, portanto, mas invertebradas em sua maioria. Autorizar moradias em um lixão desativado e ainda urbanizar a área é uma delas; contratar uma entidade espírita para controlar os resultados desta imprevisão é outra.

Para quem não acredita, no dia da tragédia, o site da Fundação trazia o seguinte aviso: "Chuvas no Rio: A FCCC só foi Acionada pela Prefeitura as 23h51 do dia 05.04.10 quando a cidade ja estava atingida pelo temporal desde as 18h00... A FCCC é Inerte e só atua quando Solicitada, conf. convênio operacional”. Pior ainda, no ano passado, de acordo com o que escrevi aqui, o secretário Luiz Guaraná defendera o descarte da ajuda espiritual, por considerar que a cidade deveria priorizar investimentos reais na conservação. Foi ignorado.

Não se trata aqui de criticar convicções religiosas de quem quer que seja, mas causa espanto a política da prefeitura. Sobre esse tema, Max Horkheimer disse certa vez: “muitas idéias, às vezes, querem dizer idéia nenhuma”. A meu ver, é esse o caso do Rio de Janeiro. Pobre Rio.

>> Come Back to What You Know; Embrace; Álbum Desconhecido
>> Revista Piauí; Abril 2010

Friday, April 09, 2010

Conselhos ao B.

#11 Vez ou outra, volte à casa.
No futuro, aonde quer que você esteja, venha à Brasília de vez em quando. Ninguém erra o caminho de retorno.

>> Quiet Little Voices; We Were Promised Jetpacks; These Four Walls
>> The Professor's Daughter; Emmanuel Guibert; First Second

Sunday, April 04, 2010

Nunc Stans


Muitos anos atrás, renascia aquele rapaz da Palestina. Ao vagar pelos caminhos, seguido de gente de toda espécie, falava em coisas aparentemente abstratas, como amor, justiça, reinos de outro mundo e reinos deste mundo.

Em nosso tempo, alguns fazem de sua palavra uma agência de empregos e de amores, além de distribuirem prêmios como loterias. Há outros, inclusive, que a utilizam como salva-vidas ao grande desespero da alma moderna. É certo que razão maior nos recomenda ver a presença do Mestre em cada uma delas. Porém, não nos podemos esquecer de uma de suas maiores lições: de nada adianta ao homem ganhar o mundo e perder a alma.

Não se pode negar dignidade à vida em seu cotidiano, sem negá-la em toda sua plenitude. Portanto, a mais bela de todas as mensagens - a metáfora sobre a vida solidária - é aquela que diz: os homens nasceram para a amizade, e não para o desprezo e o ódio. Feliz Páscoa aos prezados.

>> Balança; João Donato & Marcelo D2; The Rough Guide to Brazilian Lounge
>> The Professor's Daugther; Emmanuel Guibert; First Second

Wednesday, March 31, 2010

Blood For Oil

Ao longo de nosso passado, sempre debatemos sobre o que somos como comunidade política e o que desejamos para o futuro de nosso país. Apesar dos avanços, tal discussão redunda poucas soluções práticas. Como dizia Gilberto Amado, nossa história desconcerta o investigador.

Nas duas últimas semanas, em função da (re)partilha dos royalties do petróleo, estivemos discutindo a divisão fiscal no Brasil e, de certa forma, quase todas as intervenções estavam submetidas a injunções apaixonadas. Enfim, parecíamos voltar ao começo de tudo. Poucos ousaram tocar em nosso problema de fundo: a arquitetura federativa brasileira.

Por óbvio, o primeiro problema prático de todas as comunidades políticas é seu financiamento. Em uma sociedade, há despesas comuns que devem ser cobertas com a contribuição de todos. Como o tributo é o retorno de uma parcela dos bens obtidos pelos membros da sociedade, é natural que - na repetidíssima frase de Ruy Barbosa* -, a fim de obter igualdade, devamos tratar desigualmente os desiguais.

Ora, não há estados iguais na federação brasileira, da mesma forma que não há cidades iguais no Brasil. Portanto, se cidades e estados são diversos, multifacetados são também seus costumes, pactos e particularidades de convívio. Nesse sentido, a democracia deve contemplar cada cidade e cada estado em sua própria e particular forma de participar na federação.

Da mesma maneira, o convívio em qualquer dimensão pressupõe acordos, convênios e pactos essenciais ao regramento cotidiano. A fim de manter a estabilidade, esses acordos comunais – e o direito antigo já os sabia desde sempre – devem ser cumpridos. Pacta sunt servanda: é da inteligência jurídica romana que os acordos devem prevalecer enquanto permanecer a situação que os gerou.

Tal princípio basilar do direito civil e do direito dos povos não preponderou na nova divisão do petróleo proposta pelo Deputado Ibsen Pinheiro. Argumentou o Parlamentar, com meia razão, que os proventos do petróleo devem ser repartidos por igual na federação. O raciocínio não é de todo errado, desde que feito com as novas reservas, a serem descobertas daqui para frente.

Ilógica e carente de bom senso é a inversão tributária ocorrida a partir da emenda ao Projeto de Lei então apresentada**. E, pior ainda, pretende-se agora que a União pague pelo problema que não criou.

Grosso modo, a sociedade pátria desapercebeu-se que não se tratava apenas de um “choro” do Rio de Janeiro. O que ocorreu foi verdadeira quebra de contrato.

Por exemplo, apenas para dimensionar o tamanho do problema, o ICMS dos derivados do petróleo é cobrado apenas no estado em que se comercializam os produtos – e não pela regra tradicional, segundo a qual o imposto deveria ser cobrado no estado de origem. Salvo engano, não ouvi nenhum debate acerca do reacerto desta taxa.

Diante de tal cenário, Gilberto Amado não poderia ter maior razão: vivemos “uma série de esforços arquejantes, que não se conjugam, não se integram num conjunto. Não conhecemos a marcha continuada, o lento ascender de passo firme. Vivemos sempre a recomeçar”. Nosso regime parece ser o da inconseqüência.

>> Conselho; Marcelo D2 e Marcelo Mira; Álbum Desconhecido
>> Diário de Bordo: A Viagem Presidencial de Tancredo; Rubens Ricupero; Imprensa Oficial

* Em seu texto, o jurista baiano parecia conduzir às lições de Aristóteles sobre justiça distributiva: a igualdade citada era, em essência, uma proporção a ser aplicada na divisão de objetos entre pessoas. Caso os prezados queiram se aprogundar, vejam o livro V da Ética a Nicômaco.

** Ao contrário do que muitos jornalistas afirmaram, a proposta do pré-sal não trata de Emenda Constitucional.

Friday, March 26, 2010

Os Outros: George Best

"Gastei meu dinheiro com mulheres lindas, carros possantes e casas maravilhosas. O resto, desperdicei."

O glorioso jogador George Best, no campo da filosofia.

>> Jumpin' Jack Flash; Ananda Shankar; What It Is! Funky Soul and Rare Grooves (1967-1977)
>> Diário de Borodo: A Viagem Presidencial de Tancredo; Rubens Ricupero; Imprensa Oficial

Sunday, March 21, 2010

Conselhos ao B.

#10 A política pode ser uma atividade nobre.
Conforme a frase de Václav Havel: "genuine politics - even politics worthy of the name, the only politics I am willing to devote myself to - is simply a matter of serving those around us: serving the community and serving those who will come after us. Its deepest roots are moral because it is a responsibility expressed through action, to and for the whole".

>> Head On; Legião Urbana; Acústico MTV
>> Umbigo Sem Fundo; Dash Shaw; Quadrinhos na Cia - um dos melhores quadrinhos que li recentemente.

Friday, March 12, 2010

Adiós, Glauquito


Silêncio, o artista sai de cena. Não há o que dizer.


Cresci rindo e me divertindo com as piadas, infâmias e ironias do Glauco. Somente os que leram as revistas sabem o sentimento daqueles de minha geração.

Passei a adolescência lendo as revista do Glauco, do Angeli e de todos os demais ilustradores da pós-redemocratização. Eram sempre piadas engraçadas, aliadas a traços originalíssimos e muita crítica social – elemento comum a um país sedento por democracia.

As histórias do Glauco agradavam a jovens e adultos. Alegravam, inclusive, meu pai: o Geraldão foi um dos primeiros quadrinhos que lemos juntos durante minha adolescência e por meio do qual trocamos algumas confidências.

Por isso, a odiosa morte do artista é, também, a perda de um dos mais originais expoentes do humor brasileiro dos anos 80. É um de “Los 3 Amigos” que se vai.

A perda – na circunstância em que ocorreu – é ainda pior, pois plenamente evitável. Diante da violência fica a sensação de impotência e indignação.

Todavia - e felizmente -, a arte do desenhista sobreviverá ao tempo. Sobre o assunto, vale ler excerto de um livro chamado “Tumbas”, escrito por Cees Nooteboom e belamente editado pela Actes Sud. A obra é um tanto soturna – traz fotos de 82 túmulos de escritores e filósofos famosos -, mas a beleza do texto merece citação:

“A maioria dos mortos se cala. Eles não falam mais nada. Eles já disseram literalmente tudo o que tinham para dizer. Com os poetas é diferente. Os poetas continuam a falar. Eles têm a peculiaridade de se repetir. É o que acontece cada vez que um leitor lê ou recita um de seus poemas, pela segunda ou a centésima vez. Mas os poetas se dirigem da mesma forma aos que ainda não nasceram, às pessoas que ainda não viviam quando eles escreviam o que escreviam. (...) Esta pessoa ainda fala conosco, ainda nos diz algo, algo que ainda ecoa em nossos ouvidos, algo que guardamos e que talvez não esqueçamos nunca mais, algo que decoramos e que, de vez em quando, repetimos alto ou em voz baixa”

Dessa forma, o presente texto é minha tentativa de homenagear um sujeito que foi bacana durante minha juventude, alguém que fez a mim e aos meus amigos rirmos muito. Em momentos os mais simples, as tirinhas do Glauco foram impagáveis.

Bzzzzz.

>> La Vie en Rose; Louis Armstrong; Wall-E
>> Direito Agrário Brasileiro; Benedito Ferreira Marques; Atlas

Sunday, January 31, 2010

Gonzo Kitchen: Mini-abóboras Recheadas


Ingredientes:
- 6 mini-abóboras
- 200 g de shimeji
- 1 dente de alho sem casca
- 150g de queijo gorgonzola
- 150g de cream cheese
- 1 lata de creme de leite
- pimenta do reino e sal a gosto
- azeite de oliva
- papel alumínio

Como fazer:
- Corte a tampa das abóboras e limpe-as por dentro, removendo todas as sementes e fibras. Lave o interior dos vegetais.
- Limpe o shimeji e reserve
- pique o dente de alho em tiras finas
- coloque o gorgonzola, o cream cheese e o creme de leite em uma tigela. Amasse com um garfo até obter uma pasta uniforme.
- Coloque um pouco de azeite, o shimeji e o alho em uma panela, mexendo, de vez em quando, por 7 minutos. Junte a pasta com os queijos e coloque a pimenta.
- Distribua o creme dentro de cada abóbora, divindo de maneira igualitária.
- Forre a parte inferior de cada abóbora com papel alumínio (assim, elas não grudarão na assadeira).
- Em uma assadeira funda, coloque as abóboras.
- Ponha água até o meio, a fim de formar um "banho-maria".
- Leve ao forno em temperatura média por cerca de 35 minutos. Para ter certeza de que está pronto, enfie um palito de dentes na casca da abóbora: se estiver macia, sirva sem medo.

Junte os melhores amigos que há, algumas garrafas de Bordeaux e, voilà, divirta-se.

>> Poker Face; Lady Gaga; The Fame
>> Clarice; Benjamin Moser; Cosac Naify

Friday, January 29, 2010

iJobs

“Wow!” - iPod, 2001
“Wowww!” – iPhone, 2007
“Well…” – iPad, 2010

>> Slave To The Wage; Placebo; Placebo
>> Clarice; Benjamin Moser; Cosac Naify

Friday, January 22, 2010

You Few, You Happy Few


Neste final de semana, realizar-se-á mais um concurso de admissão para a carreira diplomática (CACD). Ao contrário de anos anteriores, não prestarei os exames. De certa forma, é estranho não fazer a prova depois de tantos anos: os temas e as questões não me saem da cabeça.

No CACD, ao menos para mim, o cotidiano e a situação do Brasil sempre foram assuntos recorrentes. Sobretudo, o estudo da história brasileira era das matérias que mais me agradava. No caso do Itamaraty, valia prestar atenção ao passado brasileiro e à maneira como esse contribuiu para nossa inserção internacional. Acima de tudo, em meus estudos, sempre percebi ênfase positiva na avaliação de nossa história.

Ao contrário da frase de Stephen Dedalus, personagem de James Joyce em Ulysses, a história brasileira não é um pesadelo do qual precisamos acordar. No mesmo sentido, penso, quando observamos nosso passado, devemos simplesmente esquecer o anjo de Paul Klee: as cenas de tristeza e desencontro humano, malgrado sejam imperfeitas, contribuíram na formação de nossa individualidade.

Apesar do ceticismo de Joyce e Klee, creio termos sobrevivido porque, em meio ao pesadelo, sempre existiram a esperança e a possibilidade de criarmos um país melhor. De minha parte, imagino que a diplomacia e as relações internacionais devem servir exatamente para esse fim.

Malgrado vivamos oscilando entre o desânimo e a confiança, sempre fomos capazes de superar nossos mais terríveis fantasmas. E, talvez, essa tenha sido a maior lição que extraí após tantos anos estudando para ingressar na Casa de Rio Branco: nossa história não é o passado equivocado que alguns tentam nos impingir.

Essa afirmativa, entretanto, não é de todo evidente para o leigo. Avançamos cotidianamente, mas os percalços aparentam-se maiores no imaginário do observador comum.

Festejamos o Ipiranga, e o jovem príncipe foi visto como o protetor da nacionalidade que nascia. Menos de dez anos depois, o herdeiro tornar-se-ia um absolutista do qual nos envergonharíamos – e dele nos livramos nos ventos liberais de 1831.

Logo após, a República prometeu-nos democracia e descentralização. Sonho não de todo alcançado até hoje. A Aliança Liberal e a conseqüente Revolução de 30 foram frustradas pela irracionalidade daqueles tempos. Depois da tibieza de Dutra, alguma esperança tivemos com a retomada do projeto desenvolvimentista de Vargas e JK. Apesar de custosos ao país, foram essenciais a nossa inserção na modernidade.

Sucessor de JK, Jânio revelou-se fraco: um terno vazio. Qualquer tenha sido o motivo da renúncia impensada – covardia moral ou quiçá outra coisa – o gesto de Jânio decepcionou a nação e fez-nos mergulhar no obscurantismo por vinte longos anos. Ainda assim, avançamos: apesar de conservadora, a modernização implantada pelos militares é inegável.

Então, findo o interregno repressivo, a esperança alternou-se para a Assembléia Nacional Constituinte – que promulgou uma boa Constituição, apesar das críticas de alguns. Avançamos, mais uma vez.

Depois, lamentavelmente, a burocracia paulista desmontou a estrutura estatal criada por Vargas/JK e preservada até pelos militares. A década de 90 quase assistiu ao desmantelamento estrutural da nação. Ainda assim, perseveramos: o plano Real até hoje confirma essa assertiva.

Após todos esses anos, enfrentadas as vicissitudes, o país parece começar a reerguer-se e a esperança a nos assistir. Não podemos deixar, neste momento, que eventuais forças alienígenas atrasem nosso encontro com o destino. É preciso sonhar – e fazer. Exatamente a tarefa maior da diplomacia.

Nossa grandeza está dentro das fronteiras nacionais e no convívio amistoso com os outros povos. É essa convivência, serena, insubmissa, firme, cordial, que nos fez brasileiros. Dessa postura, expressa pelo Itamaraty, não nos devemos afastar. Ao longo de todo o tempo, a diplomacia sempre nos logrou proteger. E, invariavelmente, como falei, avançamos muito.

Grosso modo, esse é o legado que, futuramente, os postulantes ao exame de domingo vão defender. E, também de certa forma, o presente texto é minha homenagem a esses “guerreiros”.

Portanto, caros amigos, ao fazer a prova, lembrem-se da lição do corneteiro de Pirajá: avancem degolando. Afinal, senhores, nas palavras do Chanceler Leitão da Cunha, a diplomacia está lá, à espreita, lhes esperando.

>> Hallelujah; Susanna and the Magical Orchestra; Melody Mountain
>> Clarice; Benjamin Moser; Cosac Naif

Sunday, January 17, 2010

Pós-modernos, Parker e Les Gouttes


Recentemente, fui presenteado com alguns bons rótulos de vinho. Alvissareiros presentes, aliás: minha pequena adega já estava criando teias de aranha.

Após degustar uma das garrafas, fiquei pensando sobre um tópico muito familiar aos apreciadores de vinho: quais são os fatores que influenciam nossas escolhas acerca de qual vinho comprar? Alguém ainda acredita que Robert Parker é a ”referência” mundial sobre vinho?

Eis que, para minha surpresa, a resposta da segunda pergunta parece ter mudado. Mr. Parker não é mais o líder mundial em referência enóloga. Ao que parece, o norte-americano perdeu seu lugar para um fenômeno chamado Les Gouttes de Dieu (As Gotas de Deus).

“As Gotas” é um mangá japonês e foi considerado pelo Gourmand World Cookbook como o “melhor livro do mundo sobre o vinho em 2009”. A Decanter, importante publicação no mundo do vinho, o citou como um dos livros mais influentes dos últimos anos.

A série começou a ser publicada em 2004 e hoje possui 22 exemplares. Posteriormente, a publicação seguiu para Coréia do Sul, Hong Kong, Taiwan e, da Ásia, passou a ser editada também na França. Apenas para se ter uma idéia da força conquistada pelo livrinho, em 2007 foram impressas 500.000 cópias. Em essência, todos os vinhos que aparecem no mangá são autênticos.

De início, o mundo do vinho não deu muita importância a esse novo objeto. Entretanto, quando o desconhecido Château Mon-Pérat, citado pela revista, viu seu millésime 2001 vender 20.000 garrafas em pouco tempo, os especialistas se aperceberam da novidade.

Os dois irmãos autores do quadrinho são grandes conhecedores de vinho e criaram uma história dentro da tradição de contos japoneses. No roteiro, um famoso degustador morre e seu filho, a fim de receber a herança paterna, deve provar ser melhor do que o pai. Na busca por comprovar sua perfeição, o garoto é acompanhado por um mendigo alcoólatra, uma estagirária-sommelière e um amigo enlouquecido por vinhos italianos.

A importadora japonesa, Enoteca, por exemplo, afirma que os personagens do livro são hoje responsáveis pelos pedidos da empresa. Na Coréia do Sul, a venda cresceu de modo significativo, com os vinhos passando de menos de 1/3 do mercado para cerca de 70% das vendas de bebidas alcoólicas. As vendas de um vinho chamado Umberto Cosmo's Colli di Conegliano Rosso também cresceram 30% após o rótulo ter sido citado na revista.

O interessante – e inusitado – é que parte do interesse pelo mangá pode ser creditado ao fato de a revista ensinar sobre vinhos de um modo que entretém. Em 2009, como falei acima, a Decanter incluiu a publicação em sua “Power list” na colocação de número 50, com a citação de que o trabalho é a mais influente publicação sobre vinho em 20 anos. Robert Parker tremeu, portanto.

A notícia, de certa forma, é muito boa. Ao contrário do que previam e tentaram os americanos, o mundo parece não estar se curvando a um gosto universal sobre vinhos. Felizmente, valem ainda o inesperado e a boa qualidade - como não poderia deixar de ser em um produto que carrega a identidade do terroir no qual é produzido.
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Eu ia escrever algo sobre a tragédia no Haiti. Entretanto, após ler o lúcido texto do Maurício, resolvi colocar um link aqui.

>> Um Dia Em Provença; Paralamas do Sucesso; Hey Nana
>> O Planalto e a Estepe; Pepetela; Leya Brasil

Saturday, January 09, 2010

No Teu Deserto

“- Nós não nos perdemos! – garanti-lhe, com uma pose tranquila e confiante, como se estivesse a ensaiar para um filme.
- Não? E porquê?
- Porque somos portugueses: há quinhentos anos que andamos por toda parte e conseguimos sempre voltar a casa”.
Acabei de ler o novo livro do Miguel Souza Tavares, “No Teu Deserto”. Pela terceira vez, o autor lusitano correspondeu minhas expectativas. O livro é tão enxuto – e bem escrito – que comprei-o à noite de ontem e virei a última página duas horas depois. Por sorte, a Companhia das Letras manteve o português em sua original versão.

Talvez, na língua pátria, Souza Tavares seja um dos melhores escritores da atualidade. Seus livros anteriores, “Equador” e “Rio das Flores” são também muito bons - “Rio das Flores”, porém, talvez seja o mais fraco dos três que li. Junto com Mia Couto, Pepetela e outros autores, a nova safra de escritores lusófonos está revigorando o romance da língua de Camões.

Estranhamente, todavia, entre os melhores escritores em língua portuguesa atuais, não consigo incluir nenhum brasileiro. No grupo dos melhores, as nacionalidades derivam entre Angola, Portugal e Moçambique, sobretudo. Não por acaso, recentemente elegemos Paulo Coelho para a Academia de Letras - nada a comentar, enfim.

No caso de Souza Tavares, o fato de ser filho da poetisa Sophia de Mello Breyner deve ter ajudado muito. Além disso, Tavares é declarado amante do Alentejo e, como os prezados sabem, quem não se rende de forma absoluta ao Alentejo, não merece saber que o rio existe. Para um escritor português, essa característica é fundamental – Fernando Pessoa, de alguma forma, também sabia disso.

“- Estava a pensar se há viagens sem regresso. E que nunca mais vou voltar desta viagem. Nunca mais vou regressar do deserto.”
O livro, em si, é relativamente simples: um “road-book” sobre a viagem inesperada de um casal desconhecido ao deserto argelino. Tudo a bordo de um velho jipe UMM, cheio de enlatados, garrafas de whisky e muita aventura.

De forma despropositada, o livro põe o leitor dentro da história. Um conto/romance que dói e faz rir ao mesmo tempo. É um livro de viagem que o leva dentro da viagem: deixa o leitor com areia nos olhos, com fome e frio. Deixa-nos vazios, como o deserto: a olhar estrelas. E, depois, com a estranha sensação de que tudo acabou muito depressa.

"No teu deserto" é uma carta a quatro mãos. Acima de tudo, uma carta sobre o que não se disse numa viagem de 40 dias ao deserto, realizada em 1987.

Vinte anos depois, ao tentar “reviver” a viagem, o protagonista descobre morta sua companheira (isso não estraga o livro, ela morre na primeira linha da história). Como 20 anos é muito tempo, as cartas chegaram tarde demais. É um livro sobre desencontros.

Como dizia Machado de Assis, escrever é mera questão de colocar acentos. Miguel Souza Tavares parece ter aprendida a lição: “No Teu Deserto” é simples como só, tão simples que dificilmente poderia ser melhor.

“As coisas mudaram muito, Cláudia! Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia de suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, “leves”, disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.”

>> Matamoros Banks; Devils & Dust; Bruce Springsteen
>> No Teu Deserto; Miguel Souza Tavares; Companhia das Letras

Thursday, December 24, 2009

Feliz Natal

Esta semana, o incomum tornou a acontecer. Em Nazaré, recentes escavações revelaram uma casa da época de Cristo e, de certa forma, mostraram a pobreza daqueles tempos. A singela construção evidenciou a realidade de uma época na qual culturas alienígenas, aos moldes de hoje, impunham supremacia política sobre a Palestina: no passado, os romanos; hoje, os ocidentais. Vinte séculos depois e pouca mudança, portanto.

O inusitado é que, tanto no passado quanto hoje, essa mesma política agiu como válvula de escape. Estranho possa parecer, a política, talvez a mais importante das ações humanas, serviu também a Cristo e seus apóstolos.

Em comunidade, tudo o que fazemos - ou deixamos de fazer – interfere no todo: o ato de um simples indivíduo pode liberar mudanças que alteram o cotidiano. Como disse Margareth Mead, jamais devemos duvidar que um pequeno grupo de pessoas comprometidas pode mudar o mundo.

Na verdade, nunca aconteceu de outra forma. Para alterar a história, Cristo precisou de treze pessoas apenas. O Senhor foi político, recusava o sistema romano, sobretudo. Contra César, pregava ao povo a revolução de igualdade e justiça: “a Cesar o que é de César, a Deus o que é de Deus”.

Qualquer que seja a interpretação da presença e da dimensão histórica atribuídas ao Nazareno, Ele agiu, no plano da realidade de seu tempo, como um político. Característica que não lhe exclui ou diminui a transcendência: ao contrário, o fato de o filho de Deus ter sido também um político deveria envergonhar alguns de nossos homens públicos de hoje.

A glória do Cristo se confirma na necessidade, naquele momento, e em toda a História, de sua presença no sentimento da humanidade. Decerto, todos os que o negam, acabam por confirmá-lo em algum momento da vida. Confirmam-no quando se encontram em aflição e o reafirmam quando são tocados por instantes de êxtase, de alegria e de indignação contra os opressores. Testificam-no na dor ou no amor, conforme diz o Livro Sagrado.

No mesmo sentido, somente em sua igualdade é possível entendermo-nos como irmãos: na face e nas mãos, nos olhos e nos lábios, na voz, no riso e nas lágrimas. Nós somos o que somos, e seremos maiores no tempo e no mundo, quando formos iguais, uns diante dos outros.

Dessa forma, o Natal é a festa do nascimento de Jesus porque é a festa do nascimento de todos nós. Por certo, a mensagem Dele é mais poderosa do que as instituições que reivindicam seu nome: é a palavra do Filho do Homem, para os homens; a essência de um para todos.

Para os não crentes, entretanto, Cristo é - da estrela de Belém ao Calvário - uma resposta do homem à sua própria necessidade. Porém, mesmo o agnóstico reconhece que na hora da morte, diante do ângulo reto, o Salvador – como qualquer homem – recorreu a Deus, perguntando-lhe o motivo do abandono. Nesse momento, o descrente talvez perceba o milagre: no reconhecimento da fragilidade humana, estava a grandeza da transcendência de Jesus.

O Natal, enfim, é nosso curvar a esse Mistério. É aceitar o que fez de um homem frágil, que não conseguia sozinho carregar a cruz, o Maior dos maiores.

Por isso, não podemos esquecer o Natal havido no ano zero. Mesmo com toda dificuldade e pobreza, surgiram a estrela, Baltazar, Belchior, Gaspar, incenso, ouro e mirra. Pensar diferente, nos dias de hoje, seria desonrar a memória daquele que veio para nós e até nós.

>> Leaving New York; Around The Sun; R.E.M.
>> Novo Processo Civil Brasileiro; José Carlos Barbosa Moreira; Forense

Saturday, December 05, 2009

PII


"Neste hotel, viveu seus derradeiros dias o Imperador do Brasil, Dom Pedro II. Grande patriota, protetor das ciências e das artes, amigo de seu povo"
Em 5 de dezembro de 1891, no quarto 18 do Hotel Bedford, Paris, morria o Imperador D. Pedro II. Antes de sucumbir, o monarca pediu um travesseiro no qual houvesse terra brasileira para servir de apoio a sua cabeça. A transcrição acima é de uma placa colocada à porta de entrada do hotel.

Nas palavras do Novo Dicionário Dinâmico da Língua Portuguesa, Priscila Morales descreve: “Nenhum monarca desceu do trono com tanta dignidade e moral tão elevada quanto Pedro II. Foi um soberano inatacável, cultivava o direito, a justiça e a tolerância como pontos básicos de seu governo. Recusou uma pensão que a República lhe oferecera, jamais acusou aos que o traíam e nunca, no exílio, deixou um só momento de interessar-se pelos problemas da pátria distante. Protetor das artes e das letras, fomentador da imigração, difusor da instrução pública, amigo do progresso, Pedro II ainda hoje merece o respeito e a admiração dos brasileiros”.

Para quem mora em Brasília nos dias que correm, as citações deixam saudade. Uma pena.

>> Vagabond; Wolfmother; Wolfmother
>> Memorial de Aires; Machado de Assis; Obra Completa

Sunday, November 22, 2009

Os Outros: Zappa

"Um país não pode ser um país de verdade se não tiver ao menos uma cerveja e uma empresa aérea. Ajuda se tiver uma equipe de futebol, ou armas nucleares, mas o mais importante é a cerveja."

O glorioso Frank Zappa, a filosofar.

>> The Killing Jar; Siouxsie And The Banshees; Peepshow
>> Teoria Pura do Direito; Hans Kelsen; Martins Fontes